|
A Bossa é Nossa! A quarta edição do Bossa e Balanço fechou o Verão Odeon BR em grande estilo: com banquinho, sofá, cd, uísque, vitrola, e um bate-papo excepcional sobre bossa nova com Ruy Castro. Os anfitriões: Dé Palmeira, Jorge Luiz e Hugo Sukman, conversaram e ouviram música com o escritor de "Chega de Saudade" e "A onda que se ergueu no mar", além de outros sucessos, na quinta-feira, dia 10 de abril. A abertura ficou a cargo de uma versão de Elizeth Cardoso para "Chega de Saudade", do seu disco "Canção do amor demais", de 1958 , considerado inaugural da bossa nova lançado pela etiqueta "Festa". "Nesta gravação foi onde apareceu pela primeira vez em disco o violão de João Gilberto", contou o DJ Jorge Luiz. O jornalista Hugo Sukman lembrou que a partir de 1968 até o lançamento do livro de Ruy "Chega de Saudade", em 1990, a bossa nova tinha se tornado a coisa mais velha do Brasil. Ruy concordou: "Modéstia a parte, é verdade o que ele disse. Só foi possível publicar o livro porque o editor da Companhia das Letras foi muito aberto. Se fosse uma pessoa mais conservadora, o livro não teria existido. Eles congelaram a bossa nova por 20 anos. Mas eu nunca deixei meus discos". Ele revelou que na época inclusive, alguns dos entrevistados para o livro falaram mal do movimento. "Um disse até que a bossa nova era uma corcunda que ele carregava e ainda pediu para não colocá-lo no livro", enfatizou Ruy. Até 1995, lembrou o escritor, o desinteresse das gravadoras pela bossa nova era enorme e muitos discos se tornaram raros. Para ele, é complicado fazer um livro sem que as pessoas tenham acesso às músicas. Um dos assuntos que entrou em pauta foram as diversas lendas e mitos que rondam a bossa nova. "Dizem que o João Gilberto foi influenciado como cantor pelo Chat Baker, o que é uma injustiça com ele, que vem de uma linhagem de Orlando Silva. Também falam que a bossa nova é cantada baixinho porque foi criada no apartamento da Nara Leão. E é mentira, afinal era uma pauleira, e além do mais ela morava ao lado de um terreno baldio! Ela não nasceu assim. Vou mostrar alguns cantores no Festival na faculdade de arquitetura: Johny Alf e Silvinha Teles não cantavam baixinho!", afirmou Ruy. O famoso show na faculdade de Arquitetura (localizada na Praia Vermelha), aconteceu em 20 de maio de 1960 e se chamou "A noite do amor, do sorriso e a flor". Foi considerado o primeiro festival de bossa nova. O DJ Jorge Luiz anunciou: "Estou com Johny Alf aqui no ponto para mostrar que ele não cantava baixinho!" e soltou "Rapaz de Bem". "Johny foi um precursor, um modernizador. O que chamamos de bossa nova foi apenas uma das bossas que já existiam desde os anos 30", contou Ruy. "A batida já existia, já tocavam daquele jeito antes", completou Dé Palmeira. Este evento, que reunia a turma de Ronaldo Bôscoli concorria com um outro show, no mesmo dia e hora, mas na PUC. Seria a "Noite de Sambalanço", com a turma de Carlinhos Lyra, Juca Chaves e Alayde Costa. A rivalidade era tão clara que Ronaldo Bôscoli anunciou ao microfone: "Esta é a noite do amor, do sorriso e a flor. É o primeiro festival de Bossa Nova - mas de Bossa Nova mesmo.", querendo dizer que o outro, o da outra turma, não era. Ruy Castro falou sobre a inevitável influência da música americana: "Nem se trancando em casa é impossível não se deixar influenciar. Ela penetra como a bolha assassina!", brincou, "A juventude da década de 50, que eu por pouco participei, ouvia. As famílias ouviam valsa, tango, samba. A discoteca era variada e a música americana por causa do cinema era coisa predominante". O grupo Garotos da Lua, do qual João Gilberto foi crooner por um curto período de tempo, é um exemplo disso, por ser inspirado nos grupos vocais americanos. Para exemplificar, foi tocada a música "Amar é bom", de Zé Kéti que João gravou quando era do grupo. E como artista na época, quando chegava o carnaval tinha que cantar uma marchinha foi executada "Anjo Cruel", com João Gilberto no vocal. "Devia ser um sofrimento para ele cantar em um baile!", sugeriu Sukman. Ruy Castro contou que depois de sair do Garotos da Lua, João conseguiu gravar um disco em 78 rotações. Era o início de sua carreira, que depois teve que ser interrompida por problemas pessoais. "Foi chocante quando eu disse que a influência do João Gilberto era o Orlando Silva e não o Mário Reis. Hoje eu acho que foram os dois!", conta. Uma das pérolas apresentadas na noite foi a primeira gravação de "O Pato" de 1958, feita dois anos antes da original: uma verdadeira raridade trazida pelo convidado, que também discutiu as origens da bossa nova. "Não se compõe bossa nova. Ela é uma maneira de tocar e o João Gilberto tocou várias coisas dessa forma", afirmou Ruy, que também defendeu "João", segundo ele um grande disco de samba, mas que foi muito criticado. Outro som que rolou foi "Eu quero um samba", gravação de Lúcio Alves em 1945. Em seguida mostrou-se a mesma música gravada seis anos depois por João Donato e uma terceira vez, em uma versão mais moderna por João Gilberto. Outros destaques da noite foram: "Doralice" e "Adeus América", com Anjos do Inferno; "Bolinha de Papel", com Geraldo Teixeira (também do Anjos), "Lobo Bobo" e "Samba de uma nota só". Um dos pontos polêmicos levantados por Ruy Castro foi a questão da música no Brasil. "O problema no país é a monocultura musical. Nos antigos cassinos, todos os formatos musicais cabiam. Abriram então as boates, mas sem a variedade musical de antes. No Brasil, a música só dá certo se as gravadoras e veículos comerciais sustentarem essa diversidade de estilos". A quarta e última edição foi o Bossa e Balanço que recebeu de seus "anfitriões" o título de "ideal", pois foi a única que realmente só contou com músicas inéditas e raras trazidas pelo escritor Ruy Castro. E fechando a noite, Lúcio Alves, o "patrono" do evento. (Dominique Valansi)
veja como foi o Bossa e Balanço com Marcos Valle |