
Quatro anos atrás, Kevin Smith ganhava cinco dólares por
hora trabalhando de caixa em uma lanchonete de Nova Jérsei. Hoje ele tem sua própria
produtora de filmes, acabou de lançar seu terceiro longa e está escrevendo o roteiro de
uma das produções mais aguardadas dos últimos anos em Hollywood: a nova versão de Super-Homem,
com Nicholas Cage no papel que já foi de Christopher Reeve.
A ascensão de Smith começou com Os Balconistas (Clerks),
uma comédia sobre o dia-a-dia de uma loja de conveniência em Nova Jérsei (a mesma em
que ele trabalhava). O filme -- financiado com 25 mil dólares emprestados de amigos e
parentes -- agradou pelo humor grosseiro e referências a cultura pop, e acabou fazendo de
Smith um dos diretores mais famosos da nova geração.
Depois de Os Balconistas, Smith dirigiu o lamentável Mallrats,
sério candidato a pior filme da dácada, e agora se recuperou com Chasing Amy,
comédia romântica sobre um desenhista de histórias em quadrinhos (Ben Affleck) que se
apaixona por uma lésbica (Joey Lauren Adams). Chasing Amy recebeu ótimas
críticas nos Estados Unidos e reafirmou Smith como um roteirista de diálogos espertos.
O novo filme é muito mais ambicioso que seus dois primeiros trabalhos.
Fica evidente que Smith, talvez cansado de posar de garoto-propaganda da cultura pop (Os
Balconistas e Mallrats têm horas de discussões infrutíferas e pouco
interessantes sobre assuntos como o filme Guerra nas Estrelas e os gibis da
Marvel), partiu para uma história um pouco mais "séria". "Há coisas em
comum entre este filme e os outros dois, mas é diferente. Chasing Amy é um drama
com toques cômicos, não é uma comédia rasgada como Os Balconistas," diz o
diretor.
Mas Smith não esquece seu passado. O personagem que ele próprio
interpretou nos dois primeiros filmes, Silent Bob, reaparece em Chasing Amy, e há
várias discussões (fala-se muito durante esse filme) sobre gibis. "Cultura pop é uma parte muito importante da minha vida," explica.
"Eu cresci assistindo a filmes americanos e lendo gibis, e foi essa cultura que
definiu meus gostos e preferências. É natural que meus filmes traduzam isso."
Como Smith, há diversos outros jovens diretores e roteiristas
americanos que cresceram sob o domínio de Luke Skywalker e do Capitão Kirk. Cada vez
mais se vê, especialmente nas comédias, referências a cultura pop. Muitas vezes as
piadas só são compreensíveis para pessoas que moram no país e que têm conhecimento
sobre os assuntos satirizados.
Smith espera que seus filmes não sejam assim tão inacessíveis a um
público desfamiliarizado com a América. "Acho que comédia tem que atingir todo
mundo. Eu tenho tomado muito cuidado para não escrever roteiros que só serão
compreendidos por meus amigos. Em Chasing Amy, o tema principal é o romance entre
um heterossexual e uma menina que não consegue se decidir muito bem. Acho que não há
nada de exclusivamente americano nisso." |