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O cinema sonoro está completando setenta anos, certo? Bom, depende da
sua definição de "cinema sonoro"...
Não queremos estragar a festa de ninguém, mas é preciso fazer uma
ressalva nessa efeméride: o que estamos celebrando em 1997 são os setenta anos do
lançamento do primeiro filme a usar som sincronizado para contar uma história, The
Jazz Singer (O Cantor de Jazz), estrelado por Al Jolson em 1927. Na verdade, o
som no cinema já existia quase trinta anos antes disso.
Menos de um ano depois que Louis e Auguste Lumière filmaram aquele
famoso trem chegando à estação, outros cineastas começaram a experimentar com som. Em
1896, a empresa Pathé lançou o gramofone Berliner, aparelho que sincronizava a imagem de
um projetor com o som de um disco. Nos cinco ou seis anos seguintes, tentativas
semelhantes foram feitas por pioneiros como Léon Gaumont, Auguste Baron e Henri Joly.
Era só uma questão de tempo até que alguém encontrasse uma solução
para o problema. Enquanto os cientistas/cineastas quebravam a cabeça, o cinema procurava
outras formas de adicionar som à imagem. Vários cinemas tinham bandas que tocavam ao
vivo junto com o filme. Outros contratavam atores que, atrás da tela, dublavam os
diálogos dos atores (nosso Zé do Caixão, sempre atrasado em termos de tecnologia
cinematográfica, usou este recurso até os anos 40). No Japão, existiam os benshi,
narradores cuja função era explicar o filme à platéia enquanto a ação se desenrolava
na tela.
O avanço tecnológico tão esperado aconteceu em 1918, quando três
alemães -- Vogt, Engel e Massolle -- criaram o sistema Tri-Ergon, que pela primeira vez
possibilitou a gravação de som no próprio filme. Oito anos depois, a Fox comprou os
direitos de exploração do produto e começou a usá-lo para adicionar trilhas sonoras em
filmes mudos (o primeiro foi a comédia What Price Glory?, dirigida por Raoul
Walsh, na qual Victor McLaglen e Edmund Lowe disputavam o amor de Dolores Del Rio).
Em 1927 foi lançado The Jazz Singer, um filme apenas mediano mas
que passou à história como o primeiro "talkie". Depois de The Jazz Singer,
o cinema nunca mais foi o mesmo: no ano seguinte, 1300 dos mais de 20 mil cinemas
americanos já tinham alto-falantes para exibir filmes sonoros. Em 1929, este número
subiu para nove mil.
O sucesso do cinema sonoro foi imenso, atraindo um público que antes
dividia seu tempo entre o cinema mudo e o rádio (agora, podiam ter som e imagem).
Entre 1927 e 29, o público de cinema praticamente duplicou no país, passando 60 milhões
de espectadores para quase 110 milhões. O cinema mudo, por outro lado, morreu. Foram
poucos os abnegados, como Chaplin, que resistiram à inovação (mesmo assim, ele lançou Luzes
da Cidade em 1931 usando música sincronizada).
Agora que o som tinha vindo para ficar, cineastas passaram a se
concentrar em outros problemas: como fazer bons filmes sonoros?
Por vários anos após a introdução do som, a novidade efetivamente
prejudicou o cinema, devido às suas limitações técnicas. Como todos os diálogos eram
gravados em um só microfone, os atores precisavam se posicionar perto um do outro, para
que a voz de um não cobrisse a voz de um outro. Isso gerava cenas hilariantes. Em Lights
of New York (1928), o primeiro filme totalmente falado, há uma cena em que três
mafiosos estão conversando numa sala. O microfone está escondido (muito mal escondido,
por sinal) numa lata colocada em cima de uma mesa. É evidente o esforço dos três atores
para se fazer ouvir: eles esticam o pescoço em direção à lata, como avestruzes.
Havia outro problema: a câmera usada no fim dos anos 20 era muito
barulhenta e por isso precisava ser colocada em uma cabine de vidro à prova de som, o que
impossiblitava seu movimento. Por isso os primeiros filmes sonoros são tão estáticos.
Nos anos seguintes, técnicos inventaram diversos objetos para facilitar o movimento de
câmera em filmes sonoros, como o "blimp" (uma cobertura que abafa o barulho da
câmera) e o boom (uma vara comprida onde se encaixa o microfone, e que acompanha, fora do
ângulo de visão da câmara, o movimento dos atores, gravando os diálogos).
Mesmo com todas essas melhorias, ainda existiam problemas sérios: com
um microfone apenas, não se podia gravar as vozes de dois atores, a menos que eles
estivessem perto um do outro. Rouben Mamoulian, diretor de teatro da Broadway
"importado" por Hollywood, resolveu o problema em seu filme Applause
(1929), usando usar dois microfones ligados a um mixer.
Logo os diretores mais criativos começaram a pensar em diferentes
maneiras de usar som sem prejudicar a fluidez de sua câmera. Em Hallellujah
(1929), King Vidor filmou longas sequências em que a câmera passeava por campos e
florestas, e depois dublou essas cenas com música. E Ernst Lubitsch, em The Love
Parade (1929), seu primeiro filme sonoro, experimentou com som de uma forma que nenhum
diretor havia feito até então.
Antes de Lubitsch, o som que o espectador ouvia saía invariavelmente da
boca dos personagens que apareciam na tela naquele momento. Lubitsch passou a usar o som
de maneira mais sutil, filmando cenas em que dois personagens (fora da câmera) faziam
comentários acerca de outros (que são mostrados) e usando efeitos sonoros para realçar
a comicidade de algumas cenas. De certa forma, Lubitsch fez para o som o que Eisenstein
fez para a montagem: criou seu beabá. Tudo que veio depois foi mera consequência.  |