O filme conta a estória de uma donzela, Karin, que tem que levar
os círios pascoais à igreja que fica longe de sua aldeia. Ela é a filha única de
Töre, o todo poderoso de Vangé, aldeia sueca do século XIV. Töre e a esposa, Märeta,
fazem todas as vontades da filha e deixam que Ingeri, filha adotiva do casal, tratada como
uma serva e grávida de um bastardo, acompanhe Karin até a Igreja. No caminho Ingeri
inventa estar passando mal e Karin segue sozinha. Ela encontra três pastores e
inocentemente interrompe sua jornada para descansar e comer acompanhada por eles. Eles a
violentam e matam, roubam suas finas roupas e fogem. Mas quando a fria noite de inverno
começa a cair, eles vão pedir abrigo, por acaso, na casa de Töre.
Neste filme, estão claramente presentes várias figuras freqüentes ao longo da obra
de Bergman. Ele trabalha com alguns de seus atores "de carteirinha" , como Max
von Sydow (Töre) e Gunnel Lindblom (Ingeri). O cenário medieval é pano de fundo para
uma estória que trata de assuntos atemporais, a violência, a vontade de vingança e a
necessidade de redenção. Mas a época não é só mera decoração, Bergman trabalha
como ninguém a caracterização medieval. Três anos antes de fazer A Fonte... ele
já havia filmado uma estória passada no século XIV e que se tornaria uma de suas
grandes obras-primas, O Sétimo selo. Os cenários e o figurino são pouco luxuosos
e bem rústicos dando um ar realista ao filme, bem diferente da maioria das produções
hollywoodianas do gênero onde tudo parece novo, limpo e perfumado. As interpretações
dos atores e as maneiras das personagens são impressionantes, por exemplo o modo como
elas comem e seus dentes podres, cruelmente desprovidos de qualquer regra de higiene da
sociedade moderna.
A adaptação de época é valorizada pela fotografia em preto e branco de Sven
Nykvist, fotógrafo que fez dupla com Bergman durante muitos anos. Nitidamente escura , ou
alegremente clara, as horas do dia são perfeitamente sentidas através da fotografia,
tanto nas cenas ao ar livre quanto nas de cenário. A luz que entra pela janela ou pela
porta muitas vezes é suficiente para iluminar toda a cena de maneira quase aurática.
Quando mostrado em close, cada personagem aparece com uma iluminação que diz muito sobre
seus caráteres. Aliás, o close-up é uma marca forte de Bergman, ele explora tudo que
pode de seus atores com sucessivos closes.
A Fonte... trata, também, de uma questão muito presente na vida e na obra de
Bergman, a religiosidade e a presença de Deus. Esta questão não é tratada tão
fortemente aqui quanto em O Sétimo Selo . "Ainda hoje respeito a
problemática religiosa de O Sétimo selo, dado que do filme emana uma sincera e exaltada
religiosidade. Mas em A Fonte da Donzela a motivação é muito variada, minha concepção
de Deus havia começado a enfraquecer há muito, o que me interessou, na verdade, foi a
história atroz da moça, dos homens que a violaram, da vingança" conta Bergman em
seu livro Imagens. Em A Fonte..., Deus está presente como um ser poderoso e
injusto e que pode atender aos pedidos mais impronunciáveis; aqueles que são feitos em
um momento de raiva e que depois geram arrependimentos e culpa.
"A Fonte da Donzela" ganhou o primeiro dos três Oscars de Melhor
Filme de Língua Estrangeira que Bergman recebeu.