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Alice Gomes

Uma lenda medieval sueca inspirou a fábula A Filha de Töre em Vangé, que por sua vez deu origem ao roteiro de A Fonte da Donzela, de Ingmar Bergman, de 1960. Nesse mesmo ano, o filme recebeu a menção especial do júri no Festival de Cannes e foi o ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro.

O filme conta a estória de uma donzela, Karin, que tem que levar os círios pascoais à igreja que fica longe de sua aldeia. Ela é a filha única de Töre, o todo poderoso de Vangé, aldeia sueca do século XIV. Töre e a esposa, Märeta, fazem todas as vontades da filha e deixam que Ingeri, filha adotiva do casal, tratada como uma serva e grávida de um bastardo, acompanhe Karin até a Igreja. No caminho Ingeri inventa estar passando mal e Karin segue sozinha. Ela encontra três pastores e inocentemente interrompe sua jornada para descansar e comer acompanhada por eles. Eles a violentam e matam, roubam suas finas roupas e fogem. Mas quando a fria noite de inverno começa a cair, eles vão pedir abrigo, por acaso, na casa de Töre.

Neste filme, estão claramente presentes várias figuras freqüentes ao longo da obra de Bergman. Ele trabalha com alguns de seus atores "de carteirinha" , como Max von Sydow (Töre) e Gunnel Lindblom (Ingeri). O cenário medieval é pano de fundo para uma estória que trata de assuntos atemporais, a violência, a vontade de vingança e a necessidade de redenção. Mas a época não é só mera decoração, Bergman trabalha como ninguém a caracterização medieval. Três anos antes de fazer A Fonte... ele já havia filmado uma estória passada no século XIV e que se tornaria uma de suas grandes obras-primas, O Sétimo selo. Os cenários e o figurino são pouco luxuosos e bem rústicos dando um ar realista ao filme, bem diferente da maioria das produções hollywoodianas do gênero onde tudo parece novo, limpo e perfumado. As interpretações dos atores e as maneiras das personagens são impressionantes, por exemplo o modo como elas comem e seus dentes podres, cruelmente desprovidos de qualquer regra de higiene da sociedade moderna.

A adaptação de época é valorizada pela fotografia em preto e branco de Sven Nykvist, fotógrafo que fez dupla com Bergman durante muitos anos. Nitidamente escura , ou alegremente clara, as horas do dia são perfeitamente sentidas através da fotografia, tanto nas cenas ao ar livre quanto nas de cenário. A luz que entra pela janela ou pela porta muitas vezes é suficiente para iluminar toda a cena de maneira quase aurática. Quando mostrado em close, cada personagem aparece com uma iluminação que diz muito sobre seus caráteres. Aliás, o close-up é uma marca forte de Bergman, ele explora tudo que pode de seus atores com sucessivos closes.

A Fonte... trata, também, de uma questão muito presente na vida e na obra de Bergman, a religiosidade e a presença de Deus. Esta questão não é tratada tão fortemente aqui quanto em O Sétimo Selo . "Ainda hoje respeito a problemática religiosa de O Sétimo selo, dado que do filme emana uma sincera e exaltada religiosidade. Mas em A Fonte da Donzela a motivação é muito variada, minha concepção de Deus havia começado a enfraquecer há muito, o que me interessou, na verdade, foi a história atroz da moça, dos homens que a violaram, da vingança" conta Bergman em seu livro Imagens. Em A Fonte..., Deus está presente como um ser poderoso e injusto e que pode atender aos pedidos mais impronunciáveis; aqueles que são feitos em um momento de raiva e que depois geram arrependimentos e culpa.

"A Fonte da Donzela" ganhou o primeiro dos três Oscars de Melhor Filme de Língua Estrangeira que Bergman recebeu.

Ficha técnica - Ingmar Bergman

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Ingmar Bergman