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Outras Estórias, primeiro longa-metragem do
jornalista Pedro Bial, que entra em cartaz em circuito nacional nesta sexta-feira,
dia 14 de maio, é a mais recente transposição de uma obra de Guimarães Rosa para as
telas de cinema. O filme é baseado em cinco contos do livro Primeiras Estórias:
Famigerado, Os irmãos Dagobé, Nada e nossa condição, Substância e Soroco, sua
mãe, sua filha. No filme os contos estão situados na mesma cidade e as personagens
se cruzam, mas as estórias continuam independentes como no livro. A adaptação de cada
estória foi feita pelo dramaturgo Alcione Araújo, que manteve os diálogos originais
de Rosa, e o roteiro que as liga foi escrito por Bial.
Bial se diz um apaixonado por Rosa desde a
adolescência. "Quando li Primeiras Estórias fiquei chapado, nunca tinha
visto ninguém escrever daquele jeito, praticamente criando um novo idioma com estórias
de uma profundidade abissal, eu não sabia nem que a literatura poderia ser daquela
maneira", conta ele, que ao contrário de Guimarães começou sua carreira muito
cedo, aos 20 anos produziu e dirigiu um curta-metragem e participou na produção e
montagem de vários outros. "Eu queria que meu segundo curta fosse uma adaptação de
um conto do Rosa, mas por diversos motivos minha vida mudou de rumo e eu fui para a TV
fazer jornalismo. Só agora, depois de 20 anos, estou podendo realizar este sonho."
Depois de nove anos em Londres como correspondente,
Bial voltou ao Brasil disposto a colocar em prática, de forma independente, um amplo
projeto audiovisual sobre Guimarães Rosa e sua obra. O primeiro produto desta empreitada
foi visto pelo público no ano passado: o documentário Os Nomes do Rosa. Dividido
em cinco episódios, de uma hora cada, exibidos pelo canal de televisão GNT, o programa
procurava mostrar o universo literário de Guimarães contando histórias de sua vida,
mostrando pessoas e lugares que o inspiraram e ouvindo depoimentos sobre o escritor e suas
criações.
João Guimarães Rosa teve uma carreira breve e
gloriosa, de 1946, quando já tinha 39 anos, até sua morte em 1967,sendo eleito por
unanimidade na Academia Brasileira de Letras em 1957. Rosa criou sua obra a partir de uma
base regionalista, sua pequena Codisburgo, no interior de Minas. "O filme é uma
transposição desse universo rosiano abordando justamente seus temas mais
marcantes e universais, presentes em toda obra de Guimarães; a morte, o medo da morte, a
sede de justiça, o amor e a loucura. Escolhi especificamente estes cinco contos porque
eles tratam destes temas fundamentais da obra de Guimarães e me pareceram os mais
passíveis para uma transposição cinematográfica."
Guimarães Rosa escrevia criando um vocabulário
próprio, parcialmente fundado na oralidade do sertão, mas que ao mesmo tempo nada tinha
de coloquial. Seu texto é comumente taxado de "difícil" justamente por ser
tão original e incomum. Levá-lo ao cinema pode ser perigoso. Antes de Outras
Estórias, quatro adaptações para o cinema já haviam sido feitas: A Hora e a vez
de Augusto Matraga, de Roberto Santos (1966), Grande Sertão, dos irmãos
Geraldo e Renato Pereira (1964), Noites do Sertão, de Carlos Alberto Prates (1984)
e A Terceira Margem do Rio, de Nelson Pereira dos Santos (1994). "Na minha
opinião o melhor deles é A Hora e a vez de Augusto Matraga, apesar de Noites
do Sertão ser muito lindo" opina o mais novo diretor a se aventurar na
literatura de Rosa.
"Não tentamos coloquializar ou trazer a
linguagem de Guimarães para o nosso dia-a-dia. Tentamos manter o barroquismo e a
exuberância originais do texto e fazer um filme mais operístico para ser visto com os
olhos, ouvidos e coração. É uma viagem que deve ser acompanhada mais como um poema e
uma música do que como um romance. A lógica do filme é muito mais lírica, poética e
de sonho do que de uma novela. Minha intenção foi fazer o espectador fruir muito mais a
musicalidade do texto do que o significado do mesmo. A história está contada com imagens
e com musicalidade, é uma dança entre os dois."
Outras Estórias tem seus próprios
méritos, não é apenas um texto clássico transformado em filme, tem uma
linguagem cinematográfica em um tratamento cuidadoso. A bela fotografia
de José Guerra tem cores nítidas e contrastadas em grandes planos do
sertão mineiro. A direção musical de Marco Antônio Guimarães e do Grupo
Uakti é envolvente tornando possível a dança entre texto, imagem e musicalidade
proposta pelo diretor. O elenco é variado, mistura nomes conhecidos
da televisão e do cinema como Marieta Severo, Paulo José e Giulia Gam
com atores teatrais do Grupo Galpão, mas todos juntos conseguiram uma
unidade e o trabalho não ficou teatralizado e com cara de texto decorado.
É um filme essencialmente brasileiro mas que assim como as estórias
de Guimarães pode para agradar a um público universal.
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Pedro Bial dirige Outras Estórias



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