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A ironia dogmática

Alice Gomes

Um ano depois de causar polêmica no Festival de Cannes de 1998, entra em cartaz no Brasil Os Idiotas, de Lars Von Trier, segundo filme feito segundo a cartilha do manifesto dinamarquês "Dogma 95". Na primavera de 1995, em Copenhague, um seleto grupo de diretores dinamarqueses, encabeçados por Lars Von Trier e Thomas Vinterberg, se uniu para escrever um manifesto contra certas tendências do cinema atual. Esse manifesto ficou conhecido como o "Dogma 95".

Segundo esses cineastas, tudo é falso e ilusório na cinematografia moderna. Eles pretendem resgatar a "verdade perdida" do cinema fazendo filmes mais "puros", sem recursos técnicos que possam iludir os espectadores. Para isso, formularam uma lista com dez preceitos básicos de como se fazer cinema. As regras proíbem, por exemplo, cenários e estúdios, assim como luzes especiais, som produzido fora da imagem, lentes ou efeitos óticos e filmes de gênero.

A câmara – sempre de vídeo digital - tem que estar na mão, para se ter mais mobilidade. O material é depois transferido para filme (num processo conhecido como kinescopagem), e por isso fica com um aspecto de filme caseiro. Tudo isso para obter um filme mais "sincero". O voto de castidade também diz respeito ao conteúdo do filme e não permite a alienação temporal ou espacial, nem as ações superficiais com cenas de violência e assassinato. Os filmes que seguem a risca todos os mandamentos ganham um certificado assinado pelos membros do grupo, e podem tirar uma casquinha da mídia em torno do Dogma. Até hoje três filmes já receberam o atestado: Dogma # 1 - Festa de Família (Festen), de 1998, Dogma # 2 – Os Idiotas (Idioterne), de 1998 e Dogma # 3 – Mifune, de Soren Kragh Jacobsen (1999). Todos foram muito premiados, com Festen Vinterberg ganhou o Prêmio do Júri de melhor diretor no Festival de Cannes de 1998 e Mifune levou pra casa o Urso de Prata do Festival de Berlim deste ano.

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Analisando a história do cinema, o grupo concluiu que em 1960 o cinema estava morto e precisando de uma renovação. "A Nouvelle Vague surgiu para salvar o cinema mundial. Mas o individualismo dos filmes autorais ao mesmo tempo que fazia renascer o cinema se auto-destruía porque o diretor era sempre mais importante do que a obra e do que o próprio movimento. O cinema anti-burguês se tornou burguês, porque suas teorias eram fundadas em uma base burguesa de percepção da arte. O cinema do Dogma95 não é individual", diz o manifesto, que prega que o gosto pessoal do diretor não pode influenciar o filme, o nome do diretor não consta nos créditos do filme. No entanto é ele quem dá as entrevistas, promove o filme e leva os prêmios, como em qualquer outro filme.

Muita gente acha que todo o movimento em torno do "Dogma" não passa de marketing. Os diretores se defendem dizendo que só porque os três primeiros filmes do Dogma95 tiveram um enorme sucesso local e internacional eles foram criticados e chamados de joguete comercial. "Muitos diretores, em diversos lugares do mundo, estão lutando contra o marasmo cinematográfico. A diferença é que nós nos unimos e nos proclamamos, ganhando assim mais visibilidade e força. Mas está tudo bem pra gente se dizem que tudo que falamos e escrevemos é só marketing, afinal somos missionários de uma mensagem nem sempre compreendida", diz Thomas Vinterberg, um dos lideres do movimento. "Nós somos irônicos e sérios ao mesmo tempo. Muito do que fazemos é um jogo, mas nós jogamos dentro das leis e fazemos isso seriamente", completa o diretor do Dogma#1.

Os Idiotas e Festa de Família, de Thomas Vinterberg, foram exibidos pela primeira vez no Rio em setembro do ano passado na X MostraRio, tiveram poucas sessões, mas todas lotadas. Festa de Família já esteve em cartaz em circuito nacional este ano.

Os idiotas conta a história de um grupo de jovens saudáveis e "perfeitos", de bom nível social, que formam uma comunidade que finge ter problemas mentais. Eles vivem juntos, em uma casarão no subúrbio de Copenhague, passando o tempo como se fossem retardados mentais. Se divertem em passeios públicos onde provocam situações constrangedoras, arrancando as mais diversas reações das pessoas - hipocrisia, rejeição, impaciência e piedade. As personagens são definidas segundo seu grau de idiotice. Cada um do grupo tem seu caráter estereotipado, como em todos os grupos, tem o idiota chorão, o idiota irascível, o idiota bebê, o lento, o autista, e outros. Todos têm suas características delineadas pelo jeito como agem quando estão em surto, que é quando estão mais sensíveis e liberais deixando todas suas manias ã flor da pele. Se expõem como se estivessem apenas jogando quando na verdade estão extravasando suas verdadeiras emoções. O roteiro foi escrito em quatro dias e muitas cenas foram improvisadas com os atores seguindo o clima débil do filme e de suas personagens.

O filme pretende discutir um assunto não muito original: o questionamento do conceito de normalidade. O "método" também já foi usado antes: ridicularizar as pessoas "normais", que em tese não aproveitariam a vida. O mérito de Os Idiotas está justamente na maneira como faz isso, além de parecer mais "real" por causa da naturalidade imposta pelas regras do "Dogma". Apesar da história completamente fantasiosa, o filme pode parecer debochar dos deficientes, o que não é nada politicamente correto e corre o risco de ser grosseiro e mal interpretado. Os Idiotas pode ser visto também como uma sátira aos grupos fechados de fanáticos dogmáticos que se proliferam neste fim de milênio. Se visto desse ângulo, é também uma ironia ao próprio Dogma95.

Lars von Trier, diretor do filme, estreou no cinema em 1984 com O Elemento do Crime. Tinha então 28 anos e acabara de sair da faculdade de cinema da Dinamarca. Desde então é considerado um dos maiores e mais premiados diretores dinamarqueses. Seus principais filmes são O Elemento do Crime, Europa (1991) e Ondas do Destino, ganhador da Palma de Ouro de Cannes, em 1996. Trier se diz um observador da história do cinema e muitas vezes em seus filmes ele segue os gêneros clássicos do cinema, como melodrama e thriller. Seu próximo filme não será feito sob as regras que ele mesmo inventou e pregou, muito pelo contrário, será um musical com a cantora islandesa Bjork.

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