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Dupla jornada

Alice Gomes

Isa (Elodie Bouchez) é uma jovem de vinte anos que leva o termo mochileira ao extremo. Vive com a mochila nas costas, parando de cidade em cidade para descolar algum emprego temporário e seguir viagem. Alegre e otimista, com sua espontaneidade consegue conhecer e cativar as pessoas rapidamente. Quando chega a Lille, no norte da França, arruma um emprego de costureira em uma fábrica. Lá, conhece Marie (Natasha Régnier), jovem como ela mas muito diferente: hipersensível, fechada e negativa. Isa se hospeda na casa de Marie e as duas passam a ficar mais intimas, e o próprio filme mais intimista. A casa na verdade não é de Marie, ela simplesmente toma conta da residência, que pertence à uma mulher e sua filha que sofreram um acidente de carro e estão em coma no hospital.

Isa fica no quarto de Sandrine, a adolescente que está em coma, e enquanto se instala acha o diário de Sandrine e começa a se envolver com a história da menina. Isa vai ao hospital visitar as patroas e descobre que a mãe já morreu e que o estado de Sandrine é grave. Marie nunca se interessou pela situação das acidentadas e não concorda com a atitude de Isa de vasculhar as memórias da outra, que é levada ao extremo numa bela cena onde ela escreve no diário de Sandrine, na tentativa de continuar a vida interrompida.

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O filme mostra as diferentes posturas das duas amigas recentes diante de diversas situações. Quase sempre as duas discordam, às vezes pacificamente, outras nem tanto, mas junta elas conseguem se divertir, até determinado momento. O que parece ligá-las é a vontade de curtir a vida. As duas conhecem dois motoqueiros, vigias de uma boate, e aí temos uma surpresa, pois, ao contrário do que imaginaríamos, é Marie quem se envolve com um deles e é Isa quem não quer nada com o outro, que de sua parte está muito interessado.

Os motoqueiros viajam e Marie começa a ter um caso com Chriss, o dono da boate. Nesse relacionamento é que vemos nitidamente que Marie não é forte como ela quer parecer, mesmo sabendo que Chriss é um "mauricinho" que tem todas as mulheres aos seus pés e tem prazer em feri-las, ela cai de cabeça e se apaixona pelo babaca. Por estar mais fragilizada, Marie se torna mais arredia e começa a agredir a todos à sua volta, Isa tenta abrir os alhos da amiga e só ganha patadas.

Aparentemente, Marie é a única com problemas em relacionamentos, por sua postura fechada e sua solidão, mas a facilidade de Isa em se abrir também pode ser vista como um problema. A defesa de Marie é sua rispidez, ela pode até conseguir travar contato social mas fere primeiro para não ser ferida. Isa é muito socialvel e está sempre "fazendo amigos", mas também está sempre sozinha pois sabe que no momento seguinte vai continuar sua caminhada do jeito que chegou. Dois efeitos de uma mesma situação: a sociedade fria e individualista de hoje em dia, onde todos criam mecanismos de defesa que sempre falham.

A Vida Sonhada dos Anjos é o primeiro longa-metragem de Erick Zonca, um representante do novo cinema. Por seu trabalho nesse filme, Elodie Bouchez e Natasha Régnier dividiram o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes de 1998.

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