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Nada pornográfico

Juliano Tosi

Antes de tudo, é preciso que se diga: De Olhos Bem Fechados não é o grande e tão ansiosamente esperado filme sobre erotismo, voluptuosidade e perversão, obra carregada de cenas tórridas entre Nicole Kidman e Tom Cruise, que a publicidade e os comentários e rumores na imprensa faziam crer. Não há no último Stanley Kubrick nem mesmo um grande erotismo do ambiente, volatizado, e toda sensualidade da tela freqüentemente é dirigida, para usar uma expressão de Nelson Rodrigues, com "a mediocridade de virtudes e defeitos que se exige de um marido burguês". Faltou a De Olhos Bem Fechados certo sadismo e crueldade para que o filme fosse o devaneio desejado, uma fantasia sobre as abjeções humanas – enfim, "uma história de ciúmes e obsessão sexual", como disse Kubrick, numa das únicas pistas que deu sobre a trama.

O fato de os censores americanos considerarem a polêmica e longa seqüência da orgia um escândalo, e só liberarem o filme com uma classificação para o público razoável após alterações digitais que escondessem os excessos de apelo carnal e corpos nus, só vem a confirmar a tese de que o sexo só se define negativamente pela moral – e todos nós sabemos o quanto o americano médio pode ser conservador, o que não deixa de ser uma forma de alienação, pois nada mais cínico do que realizar filmes aprazíveis para uma platéia de violentos e pervertidos. Ora, se no modo de pensar de lá um filme como Ata-me é tido como pornográfico (e isso aconteceu), o que mais pode-se dizer sobre a polêmica de De Olhos Bem Fechados senão que, ao menos em termos de moral, ela é irrisória? Sorte a nossa que foi a versão integral que chegou ao circuito brasileiro. Dito isto, podemos partir para o filme em si.

Primeiro há a imagem, breve e por isso ligeiramente imprecisa, de Alice/Nicole Kidman deixando cair o vestido preto, o corpo nu aparecendo de costas para a câmera; em seguida, a tela vai escurecendo, como o início do enredo de um sonho. Em De Olhos Bem Fechados tudo é cuidadosamente preparado para reforçar o clima fantasioso em torno da sensação de se estar sendo levado para além da realidade. E se considerarmos o já muito falado parentesco entre a psicologia do espectador de cinema e os mecanismos do sonho, tudo se passa como se esse caráter onírico do filme também nos comprometesse. A conclusão é que Kubrick tinha na mão um ótimo princípio de filme: revelar a lama inconfessa que existe por trás da carapuça da respeitabilidade no fundo não só de Bill/Tom Cruise, mas de cada um na sala do cinema. No entanto, a grande decepção do filme é que em momento algum Kubrick cumpre a promessa inicial de levar os espectadores "aonde o arco-íris termina" – aí sim De Olhos Bem Fechados teria motivos para incomodar os censores. Digamos que, se para cada conteúdo há uma forma, o tratamento dado por Kubrick ao filme é "limpo" demais para seu tema.

De Olhos Bem Fechados é baseado em "Breve Romance do Sonho", livro do austríaco Arthur Schnitzler, autor reconhecido pelo tratamento psicológico que dava em sua obra aos temas sexuais. A história gira em torno de um feliz e bem-sucedido casal que se vê perdido entre maus sentimentos e tenta resistir à vertigem de seus medos e recalques, pretexto encontrado para por em dúvida os valores e ideais de fachada desse fim de século insincero e decadente. Na verdade, o tema não tem nada de muito novo e toda audácia possível na empreitada está muito mais dentro da ordem de como lidar com ele. Mas em se tratando de Kubrick, autor de algumas bombas como Glória Feita de Sangue, Doutor Fantástico e Laranja Mecânica, as expectativas por um filme corrosivo eram mais do que naturais. É surpreendente ver como De Olhos Bem Fechados se impõe como um filme conformista, resignado e com direito a uma constrangedora cena de purificação final, algo quase tão moralista quanto Atração Fatal.

Depois da primeira seqüência em uma festa, cena em que Kubrick carrega todo seu virtuosismo nos contrastes, nas tintas e nas luzes, o filme parece que vai engrenar. Já na noite seguinte, em uma das poucas cenas que revelam alguma força dramática, Alice e Bill conversam despreocupadamente, uma conversa alimentada por um baseado (considerando o estado em que os dois ficam, um baseado muito bom) e que aos poucos descamba para o ciúme, a discussão e a troca de acusações – no baile, enquanto Alice dançava animadamente aos braços de uma paródia de sedutor, Bill se deixava levar para um passeio por duas esculturais modelos. No auge da briga, Alice conta para o marido suas fantasias com um marinheiro que vira durante as férias: "Ah, se vocês homens soubessem...", diz ela.

A ameaça soa como um alarme na cabeça de Bill, e o que vemos nas cenas seguintes é uma aventura pessoal de duas noites, duas madrugadas hipnóticas: inflamado pela imagem de sua mulher com outro homem, ele vaga pelas ruas de uma Nova York recriada em estúdio, deslocado diante do mosaico de encontros inesperados e de lugares estranhos, perdido com sua mais torpe imaginação. Essa trajetória culmina na já citada orgia, um ritual particular numa mansão nos arredores da cidade que se revela perigoso para o intruso. A essa altura, De Olhos Bem Fechados tem toda sua obsessão resumida a um exercício de voyeurismo de Kubrick e toda expectativa se transforma em decepção e alguns assassinatos – ou seja, um thriller por assim dizer bastante convencional. Um dos pecados do filme, não o menor, mas certamente o final, é que a esse jogo da verdade que se faz do filme não resta nem mesmo a possibilidade da dúvida, e todos os problemas são resolvidos quase que por obrigação.

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Stanley Kubrick