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"Eu me assusto facilmente. Eis a lista do que me faz
produzir adrenalina: crianças pequenas, policiais, lugares altos e que o meu próximo
filme não seja tão bom quanto o último". Tivesse sido dita por qualquer outro
cineasta, esta declaração não passaria de um curioso dado biográfico. Mas ela ganha um
significado especial por pertencer a um diretor que definia como a missão de sua vida
"simplesmente assustar o máximo possível as pessoas". É difícil imaginar que
Alfred Hitchcock, sinônimo de suspense, pudesse ter medos tão prosaicos. Na ocasião de
seu centenário, que seria completado no dia 13 de agosto, faz-se útil relembrar, além
de seus mundanos receios, sua imortal contribuição à história do cinema.
Nascido em Leytonstone, na Inglaterra, Hitchcock inicia sua
carreira em 1919, ilustrando cartões com falas para filmes mudos em um estúdio em
Londres. Na rotina do ofício, aprende os processos básicos de roteiro, edição,
direção de arte e, em 1925, completa seu primeiro filme como diretor com "The
Pleasure Garden", uma produção anglo-germânica filmada em Munique. Já no ano
seguinte, "The Lodger" apresenta aquele que passaria a ser um tema marcante em
sua obra: um homem inocente é injustamente acusado de um crime e acaba emaranhado em uma
trama complexa. É também em "The Lodger" que Hitchcock inaugura uma de suas
principais marcas registradas: suas discretas aparições em alguma cena, que viriam a se
repetir em dezenas de filmes posteriores. Outro tema recorrente viria a surgir na virada
da década com "Blackmail" (1929), seu primeiro filme sonoro, e
"Murder" (1930): a relação entre sexo, sedução e violência.
Até 1939, Hitchcock ainda dirige mais onze filmes em seu país,
entre os quais "O Homem que Sabia Demais" e "Os 39 Degraus", antes de
mudar-se para Hollywood com a intenção de fazer um longa-metragem sobre o desastre do
Titanic. O projeto naufraga e o cineasta estréia sua produção norte-americana com
"Rebecca" (1940), estrelado por Laurence Olivier e Joan Fontaine. Dono de um
senso de humor sutil e aguçado, Hitchcock comparou sua ida para os Estados Unidos a uma
espécie de intercâmbio cultural com a Inglaterra, com a ressalva de que "ninguém
sabia o que havia sido enviado em troca porque eles ficaram com medo de abrir para ver o
que tinha dentro".
Com "Suspeita" (1941), o diretor inglês introduz o
suspense no plácido ambiente conjugal, através da história de uma mulher que acha que o
seu marido é um assassino prestes a fazer dela sua próxima vítima. "Muitos
assassinatos têm sido domésticos, cometidos em lugares simples e caseiros como a mesa da
cozinha", disse Hitchcock certa vez. A lógica familiar da violência também aparece
em "À sombra de uma dúvida" (1943), no qual uma jovem descobre que seu tio
preferido é um assassino. Datam desta época dois exemplos capitais da habilidade do
"mestre do suspense" na condução da câmera. "Um barco e nove
destinos" (1941) se passa todo no espaço confinado de um pequeno bote salva-vidas, e
"Festim diabólico" (1948), sobre a tentativa de dois amigos de cometerem o
crime perfeito, desenrola-se em um ritmo ininterrupto e quase teatral, dando a impressão
de não haver cortes nas seqüências.

O Hitchcock dos anos 50 é especialmente fértil e genial. Em
títulos como o thriller "Disque M. Para Matar" (1954); "Janela
Indiscreta" (1954), com James Stewart no papel de um fotógrafo que testemunha um
assassinato pela janela de seu apartamento; "Um corpo que cai" (1958), também
com Stewart na pele de um detetive acrofóbico que se envolve com uma mulher de identidade
misteriosa; e "Intriga internacional" (1959), com Cary Grant e Eva Marie Saint
em uma elaborada história de intrigas e perseguição, a concepção fílmica do cineasta
parece atingir seu ápice. Elementos típicos do universo hitchcockiano, como os
relacionamentos subliminares entre homens e mulheres, humor subjetivo, trilha dramática
e, claro, o exercício pleno do suspense cênico, conjugam-se com perfeita harmonia. Neste
período, o cineasta empresta seu talento e sua experiência para a dramaturgia
televisiva, dirigindo episódios da série "Alfred Hitchcock Presents", entre
1955 e 1962, e "The Alfred Hitchcock Hour", entre 1962 e 1965.
Se esta década é valiosa para a cinematografia de Hitchcock, a
seguinte não começa de outra forma. "Psicose" (1960) é provavelmente seu
filme mais famoso e pelo qual o diretor é mais lembrado até hoje, muito em parte pela
antológica seqüência do esfaqueamento no chuveiro de Marion Crane (Janet Leigh) pelo
alucinado Norman Bates (Anthony Perkins), vestido com as roupas de sua mãe. O ritmo ágil
dos cortes, os closes da faca de Bates e do rosto apavorado de Leigh e a trilha sonora
lancinante foram responsáveis por fazer desta uma das seqüências mais impactantes
jamais vista nas telas. A opinião do autor, porém, foi diferente. "Para mim
Psicote foi uma grande comédia. Tinha que ser", considerou um Hitchcock
enigmático mas sempre divertido. Três anos depois ,"Os pássaros", com Jessica
Tandy e Rod Taylor, desumaniza a essência do mal, atribuindo-lhe inexplicáveis razões
ambientais para contextualizar o ataque letal e furioso de pássaros em uma cidade.
"Topázio" (1969), considerado por muitos
um de seus piores filmes, marca o fim de sua última etapa produtiva
contínua. Daí até sua morte, no dia 28 de abril de 1980 por falência
orgânica e problemas cardíacos, ele realizou, espaçadamente, mais dois
filmes: "Frenezi" (1972), "Trama macabra" (1976).
Mesmo reconhecido como um dos maiores nomes da história do cinema, e
praticamente o fundador do suspense como um gênero cinematográfico bem
definido, Hitchcock nunca teve qualquer de seus mais de 60 filmes premiado
pelo Oscar. Mas isso não faz a menor diferença. Os cinéfilos sabem que
Alfred Hitchcock era o homem que sabia demais sobre a arte de fazer
bom cinema.
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Anthony Perkins em Psicose

Gary Grant em Intriga Internacional


James Stewart em Festim Diabólico

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