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Poesia e arte em movimento

Alice Gomes

O roteiro para um média-metragem mudo escrito em 1930 pelo poeta espanhol Federico García Lorca (1898 – 1936) ficou engavetado durante anos, até ser redescoberto e filmado pelo artista plástico catalão Federic Amat. Afirma-se que o filme seria uma resposta a Um Cão Andaluz, de Luís Buñuel e Salvador Dalí (1929). Viagem à Lua é composto de 72 cenas surrealistas distribuídas ao longo de dezenove minutos. O filme é inédito no Brasil.

Federico García Lorca vivia em Nova York, entre os anos de 1929 e 1930, época em que Luís Buñuel e Salvador Dalí lançavam, em Paris, Um Cão Andaluz, filme que se tornou um dos maiores clássico do cinema de vanguarda. Lorca é da Andaluzia e, dizem, se sentiu ofendido com o título do filme, achando que o tal cão seria ele. Após uma conversa com o cineasta e pintor mexicano Emilio Amero, em que falaram da estréia de Um Cão Andaluz, Lorca escreveu o roteiro de Viaje a La Luna em poucos dias. Um manuscrito de 14 páginas divido em 72 cenas que narram uma história de maneira não convencional, aparentemente uma ação não é causa nem conseqüência da outra. O filme seria, assim, um tipo de resposta a Um Cão Andaluz, e também uma tentativa de transformar imagem poética em imagem visual com fortes influências surrealistas.

A primeira publicação do roteiro foi feita em inglês pela revista New Directions, em 1964, mas não era a tradução do texto original e sim a de uma adaptação feita por Amero. Em 1980 foi publicada uma versão parcial do texto de Lorca em castelhano, mas enquanto isto o manuscrito original estava praticamente desaparecido, até que a viúva de Amero o achou em 1989 e, com a ajuda da Fundação García Lorca e do Ministério da Cultura espanhol, o texto foi recuperado e publicado em 1994. Ano passado foi o ano das comemorações de cem anos de nascimento de Lorca e, como parte das homenagens, foi possível realizar o filme. Essa é a lendaMas toda essa história a cerca deste roteiro tem algumas falhas.

Buñuel, Dalí e Lorca viveram juntos de 1919 a 1925 na Residência de Estudantes de Madri , um campus universitário com quartos baratos. Eles se tornaram amigos íntimos e organizavam sessões de leitura de poesia e noitadas famosas entre os jovens boêmios madrilenos. A Residência foi um ponto de encontro da jovem elite cultural hispânica e de lá saíram grandes nomes das artes e da política espanhola deste século. Em sua autobiografia, Meu último suspiro, Buñuel conta sobre sua experiência na Residência e fala sobre cada um de seus amigos, dedicando especial carinho a Lorca. "Brilhante, simpático, com evidente propensão `a elegância, a gravata impecável, o olhar escuro e brilhante, Federico tinha uma atração, um magnetismo ao qual ninguém podia resistir. (...) Nossa amizade, que foi profunda, data de nosso primeiro encontro. Com seu trato fui me transformando pouco a pouco ante um mundo novo que ele ia me revelando dia após dia. Juntos, só nós dois ou em companhia de outras pessoas, passamos horas inesquecíveis ", recorda Buñuel. O único vestígio de um possível desentendimento entre os dois teria sido quando Buñuel escutou dizer que Lorca era homossexual e foi esclarecer diretamente com ele o assunto. Lorca se sentiu ofendido e rompeu relações no ato. "Na mesma noite nos reconciliamos e nunca mais nos desentendemos."

Buñuel diz que Um Cão Andaluz nasceu da confluência de um sonho seu com um outro de Dalí. Os dois sonhos não tinham nenhuma relação entre si, mas os dois acharam interessante poder uni-los sem dar satisfação à ninguém . "Escrevemos este roteiro em menos de uma semana e seguimos uma regra muito simples: não aceitar idéia ou imagem alguma que pudesse dar lugar a uma explicação racional, psicológica ou cultural. Abrir todas as portas ao irracional. Não admitir nada além das imagens que nos impressionavam, sem tratar de averiguar por que. Em nenhum momento houve desentendimento entre nós. Um sugeria uma idéia que quando era aceita não era discutida e quando não era aceita era esquecida para sempre". O filme queria questionar, mas não queria responder às questões levantadas. Foi aclamado pelo grupo surrealista e por toda a elite cultural parisiense da época, ficou em cartaz durante oito meses com bastante sucesso e alguns protestos. Não há o menor indício de alguma intenção de ofender a Lorca, ou a qualquer pessoa em especial.

Outro ponto não muito claro é que, segundo a lenda, Lorca não teria visto Um Cão Andaluz, teria apenas ouvido falar a respeito. O curioso é que em Viagem à Lua existem citações claras ao clássico surrealista. A primeira cena do roteiro lorquiano tem formigas que dançam em um lençol que é retirado com uma mão invisível; uma das imagens mais conhecidas do filme da dupla espanhola é uma mão furada com formigas saindo sem parar. Na cena 18 do filme do poeta andaluz a lua se corta e aparece um desenho de uma cabeça que vomita abrindo e fechando os olhos e se dissolve; o que parece ser uma alusão à outra celebre cena de seu "rival" onde aparece uma lua com uma fina nuvem no meio passa se para uma navalha que corta ao meio um olho de uma pessoa viva. Esta cena repulsiva para os padrões da época causou muito impacto e foi motivo de queixas na polícia. Em outra cena, a de número 61, uma mulher se defende de um homem, que com grande fúria a beija e põe os dedões sobre os olhos dela como se fosse fura-los. Na cena 69 uma casal vestido de branco entra em um lugar com uma cama com um morto e um lençol branco por cima, o homem pinta um bigode no morto, o bigode é igual ao de Dali.

Lorca pode até não ter assistido ao filme de seus amigos, e realmente só ter recebido informações precisas à respeito dele, mas uma coisa é certa; o diretor Federic Amat o viu. O que muitas vezes parece uma ligação com o filme de 1929 pode não estar tão explicito no roteiro Lorca, mas está nas imagens de Amat. Por exemplo, as constantes imagens da lua ao longo dos 19 minutos do curta são sempre muito parecidas com a lua inicial de Um Cão Andaluz. Amat e’ um conhecido pintor e cenógrafo nascido em 1952 em Barcelona, realizou mais de 50 exposições individuais em diversas cidades do mundo, como: Madri, Barcelona, Berlim, São Francisco, Cidade do México e Nova York. Entre suas criações cenográficas estão varias peças de Lorca, inclusive O Publico, obra escrita quando o autor morava em Nova York e que junto `a obra poética O poeta em Nova York e ao roteiro de Viagem à Lua formam a trilogia nova-iorquina de Lorca.

García Lorca foi um dos mais representativos escritores espanhóis deste século. Era um grande poeta e um grande dramaturgo, além de desenhista e musicista notável. Apesar de seu grande amor à terra e à gente andaluza Lorca também tinha seu lado cigano e de suas várias viagens pelo mundo sempre incorporou algo que se refletia em suas obras, principalmente da viagem que fez em 1929 para os Estados Unidos. Lorca voltou perplexo com a desumanização e com a mecanização de uma sociedade muito distanciada dos valores que tornam o ser humano digno. Da trilogia produzida durante sua estada em Nova York a obra mais conhecida foi O poeta em Nova York, seguida da peça O Publico. Apesar de o roteiro de Viagem à Lua ter sido o único escrito por Lorca ele não se tornou muito conhecido e é até mesmo esquecido em vários textos sobre o autor. Toda sua obra nova-iorquina foi publicada após sua morte. Lorca morreu em 1936 fuzilado pelo exército franquista durante a Guerra Civil Espanhola, e seu corpo nunca foi encontrado.

Amat estréia na direção cinematográfica com Viagem à Lua misturando cinema e pintura com recursos de tecnologia virtual. "Desentranhar os enigmas de Viagem à Lua em uma recriação de suas imagens foi para mim uma fascinante tarefa. Um empenho para destilar sua essência, dar forma à sua sugestão poética e deixar que o próprio roteiro se manifestasse nos distintos procedimentos fílmicos a que convida a concepção lorquiana, obscura e inexplicável mas nunca ininteligível. Fazer visível a idéia do poeta me permitiu processos pictóricos, fílmicos, de criação digital e de inserção imagens" conta o artista. A mistura da tecnologia pós-moderna e da formação pictórica de Amat à sensibilidade modernista de Lorca faz do filme uma verdadeira obra de arte; não é um filme de arte e sim um filme-arte. Pode ser interpretado como uma viagem até um objeto de desejo inalcansável, na qual se luta contra violentos obstáculos diante os quais se revela um conflito sexual com manifestas conotações homossexuais. Com uma eloqüente e inquietante plasticidade o filme mostra o ciclo da vida, a busca pela liberdade e pela sexualidade e a falsidade da sociedade opressora. "Viagem à Lua não é só uma viagem ao interior do poeta, é também um intinerário universal. Através do teatro, da poesia e da imagem em cinematográfica nos revela um mundo de aparências e máscaras que finalmente revelam sua verdadeira identidade, nua e crua. O rosto humano em sua face final: a caveira" interpreta Amat.

Viagem à Lua é a principal atração do programa Rumos do Cinema e Vídeo, projeto que visa apresentar e discutir as novas propostas da linguagem audiovisual nacional e internacional através da projeção de trabalhos visionários, inéditos ou históricos. Rumos do Cinema e Vídeo é promovido pelo Itaú Cultural e reestréia este mês de maio com uma programação que apresenta Viagem à Lua, o clássico Um Cão Andaluz, e trabalhos de artistas brasileiros. O programa estará em cartaz de 26 a 30 de maio no Itaú Cultural (Av. Paulista 149), a entrada é franca.

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