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Arthur Omar é um
artista múltiplo; faz cinema, vídeo, fotografia, música, poesia e teoria. Seu trabalho
desponta no princípio da década de 70, quando ele fez cerca de dez curtas-metragem e um
longa que lhe renderam vários prêmios nacionais e internacionais. Mas foi com a
fotografia que Omar se iniciou no mundo da arte . Ele começou a fotografar em 60, aos 12
anos de idade, e se encantou com o mundo estático em P&B. Tornou se membro do
fotoclube da Abaf onde participava de concursos mensais e aos 16 anos já havia ganho
algumas medalhas. "Durante muitos anos só pensava em fotografia, era a arte pela
arte, puro prazer" conta ele.
É assim com seu trabalho atualmente em evidência, mas que nem só por isso é
o mais recente. A Antropologia da Face Gloriosa, série de 76 fotografias que está
em exposição no CCBB até 25 de abril, é um trabalho que já faz parte da vida do
autor. Há 25 carnavais Omar pega sua Nikon e sai pelas ruas do Rio de Janeiro à procura
de suas personagens. São pessoas comuns que naqueles dias de liberação geral deixam à
flor da pele seus momentos de êxtase. E é exatamente isto que Arthur Omar quer,
"colher as experiências fulminantes do transe carnavalesco"; o êxtase
espontâneo, momentâneo e em estado puro. "A face gloriosa é a expressão de
alguém que está passando por um momento de transe, por uma experiência alterada da
consciência, por um estado superior ao seu estado normal, isto que pode acontecer com
qualquer um a qualquer momento, despercebidamente. A diferença é que no carnaval as
pessoas estão pré-dispostas a passar por estes momentos, o que torna a captura de faces
gloriosas mais fácil nesta época", explica o fotografo.
"Tudo começou como um hobbie, sem pretensões, que aos poucos foi
adquirindo leis próprias. Em torno destas leis foram geradas teorias, idéias, livros,
textos, títulos, instalações e um vídeo. A Antropologia da Face Gloriosa é uma
entidade própria, é uma ciência com regras específicas e resultados únicos". É
uma antropologia porque é um estudo do homem, mas um estudo restrito ao rosto onde o
conhecimento é gerado através do hábito de fotografar a face humana. "Durante os
25 anos de trabalho pude perceber a diferença de algumas expressões que eram usuais em
70 e já não são mais usadas hoje em dia, o mesmo acontece com roupas, com maquiagens e
com a própria atitude dos foliões."
No entanto Omar não apresenta as fotos como um estudo e com uma ordem
cronológica e espacial. "Minha intenção é descontextualizar cada foto, isto de
certa maneira acontece com todos os meus outros trabalhos. Sempre procuro isolar o objeto
para trabalhar só com ele e desta maneira causar o máximo de impacto no
observador".
As fotos de A Antropologia ... respeitam regras estéticas muito
específicas, mas não usuais. O foco e a velocidade podem estar "errados" mas
geram uma foto única sem precedentes e referências. Isto porque quando Omar bate cada
foto ele também entra em êxtase, simultaneamente com seu fotografado. "O fotografo
também vive a glória. Eu e o outro entramos em harmonia, ficamos desnudados e é só na
foto que vou perceber o êxtase. É por isso que cada foto é única, disparo só uma vez
para cada pessoa. A cada carnaval saio com cerca de 80 filmes de 36 poses e depois tenho
36 faces de desconhecidos distintos em cada filme".
Omar não é um fotografo tipicamente bressoniano que aguarda o momento decisivo
onde tudo se configura perfeitamente. Segundo ele este tipo de fotografo tem o olho muito
treinado para captar o momento decisivo, mas Omar não se detém a isto. "No momento
que sinto estar em perfeita harmonia com o outro meu olho fica imóvel e é minha mão que
entra em ação. Não mudo a velocidade nem o obturador, disparo o botão e aguardo para
ver o resultado. As vezes me perguntam onde eu acho estas caras, respondo que é onde
todos estão, vejo vários fotógrafos no mesmo lugar que eu só que eles estão
procurando uma espécie de foto e eu estou conscientemente à procura das faces
gloriosas".
Omar age como um artista que conhece cada processo necessário para fazer sua
arte e reflete sobre tudo desde a execução até a obra pronta. E só quem domina a
técnica é capaz de burlá-la. Ele desafia a física quando está em ação, usando a
criatividade onde a técnica poderia dar um resultado satisfatório sem muito risco. Ele
se da ao luxo de não seguir algumas regras básicas e criar seu próprio método, e
executa seu trabalho ritualisticamente. "Não adianta você usar um filtro especial,
um filme granulado e uma velocidade lenta para tirar uma foto igual a uma que obtenho por
acaso, o que você vai conseguir é uma caricatura daquilo que eu faço, a diferença é
que quando faço estou me entregando completamente. É por isso que consigo estes
resultados." Omar sempre usa lente 35mm sem qualquer apetrecho especial. "Faz
parte da Antropologia ... a interação do fotografo, se eu usasse uma tele
perderia este fator essencial. No carnaval as pessoas se preparam para ver e serem vistas,
faz parte ela se exibirem para as câmaras. Não é preciso nenhum voyerismo, com uma
lente que mantenha o fotógrafo afastado. Quase não preciso abordar as pessoas para
fotografá-las, elas se oferecem. O meu trabalho é desmontar a pose artificial que elas
preparam e encontrar o verdadeiro êxtase".
É no laboratório que surge a verdadeira Face Gloriosa. O filme, sempre um
Tri-X, contendo as mais diversas experiências extáticas será revelado de maneira
singular; Omar interfere aí como artista e não como um laboratorista. As condições
normais de temperatura e tempo recomendadas pelo fabricante são fáceis de se decorar e
praticar, mas ele não as segue. Seu método é a "revelação por música".
"Escolho uma música ao acaso, aquela que tem a ver com meu estado de espírito no
momento, e em quanto durar a música o filme fica no revelador sendo mexido de acordo com
o ritmo da melodia". O resultado é sempre distinto. As vezes os filmes ficam mais
densos e outras mais ralos. "Uma vez um negativo ficou tão denso que não se via
nada, ampliamos a foto sem saber seu conteúdo. Deixamos o ampliador ligado cinco horas,
sai do laboratório jantei e depois voltei para revelar a foto."
O vídeo Infinito Contínuo , que está sendo exibido no CCBB
paralelamente às fotografias, mostra Arthur Omar em ação no seu laboratório. "É
um vídeo bem diferente de todos os meus trabalhos anteriores, não tem nenhum glamour,
não tem música, é quase um vídeo caseiro, um making off de A Antropologia de face
Gloriosa. É curioso como algumas pessoas o estranham e menosprezam e outras conseguem
ver nele todo um lirismo metafórico, como se a imagem da foto surgisse
míticamente."
A exposição que está agora no CCBB é uma outra versão daquela que foi
apresentada na Bienal Internacional de São Paulo do ano passado. Na Bienal as fotos
estavam organizadas em um grande mural, eram 99 fotos de 1m x 1m dispostas em
3 fileiras e que praticamente formavam uma só obra, ficando difícil observar uma por
uma. No CCBB são 76 fotos organizadas em uma sala branca onde se pode entrar
em cada face. Cada foto aparece com seu título original , que foi omitido na Bienal
porque lá não se tinha foto por foto independentemente , mas que está presente no livro
A Antropologia de face Gloriosa, primeiro livro gerado pelas leis da Antropologia
... e onde se tem uma foto por página com seus respectivos títulos.
Os títulos são um capítulo a parte. A princípio soam estranhos, não têm um
sentido aparente, são novas obras, como por exemplo O Pastor de Cinzas num Abismo
Iluminado, ou Não te vejo com a pupila, mas com o branco dos meus olhos.
"Um bom título tem que valer por si mesmo, e não se referir a nenhuma outra imagem,
a não ser as imagens verbais que ele mesmo carrega dentro de si."
O livro O Zen e a Arte Gloriosa da Fotografia é um livro
de trabalho da Antropologia de face Gloriosa e foi lançado
simultaneamente a exposição do CCBB. As fotos aparecem refotografadas
em estágios de produção. Os textos são explicações para se melhor entender
A Antropologia..., como por exemplo entrevistas com Arthur Omar
onde ele explica seu método de ampliação ou sua formação fotográfica
e seus títulos incomuns.
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