Sam Raimi, diretor de Um
Plano Simples, que chega com certo atraso aos nossos cinemas, é um desses raros
artesãos-autores que o cinema americano vez por outra consegue dar à luz um
cineasta da mesma linhagem de um Roger Corman ou um John Carpenter, ou para ficarmos mais
em dia, da comédia de arquétipos dos irmãos Coen, com quem co-escreveu o roteiro de
Na roda da Fortuna. O nome de Saimi apareceu pela primeira vez em 82, com Evil Dead,
filme de terror sobre o mau gosto dos filmes de terror, na verdade uma comédia que
se aproveitava da quase que completa falta de recursos para levar os clichês do gênero
aos extremos do absurdo e assim devorar sua lógica. O sucesso foi tão grande que Evil
Dead mereceu duas seqüências, coisa em que as fitas de terror sempre foram
pródigas.
Dizer que grande parte dos filmes de hoje
são muito mais aparência e maquiagem do que conteúdo ganha cada vez mais o valor de
constatação. Ora, nesse contexto qual é o caminho para os cineastas verdadeiramente
modernos, os que não pretendem abusar de esteticismos fora de época? Trabalhar as
aparências, converter os clichês, contrabandear idéias e daí tirar algo muito maior,
mais sincero e complexo assim muitos deles têm encontrado a saída, na
desconstrução das regras, do vocabulário mais corrente no gosto do público. Não é de
se surpreender que alguns bons realizadores, diretores de valor que sabem trabalhar as
imagens de forma inteligente, passem desapercebidos no meio do joio do circuitão
cinematográfico se há 40 anos a opinião formada na crítica sobre Hitchcock era
a de um mero e competente animador de platéias, porque não acreditar que algo semelhante
não aconteça agora?
Para os admiradores de Raimi, foram quatro
anos de espera desde o algo decepcionante Rápida e Mortal até Um Plano Simples,
obra bem mais madura, um suspense que, não bastassem suas outras qualidades, já se faz
admirável pelo fato de conseguir eliminar a sensação de vazio e inutilidade típica da
maioria da produção do gênero. O filme conta a estória de três homens que, por mera
obra do acaso, encontram no meio de uma reserva um avião acidentado surpresa que
se mostra ainda maior quando descobrem mais de 4 milhões de dólares dentro da cabine. No
meio da discussão sobre se deveriam ou não ficar com a bolada,. Jacob (Billy Bob
Thornton) diz: "O sonho americano numa sacola!". Ao que responde Hank (Bill
Paxton), seu irmão mais inteligente e supostamente mais honesto: "Ora, você
trabalha para chegar ao sonho, não rouba ele". No confronto com a realidade, no
entanto, nem mesmo Hank acredita com muita convicção nesse ideal e os três decidem
guardar a sacola, um plano a princípio bem simples: esperar até que o avião seja
encontrado pela polícia e quem sabe, se ninguém der falta, dividirem o dinheiro. Ou
seja, desde que não se faça mal a ninguém, não há ética a ser seguida.
Aos poucos, porém, o desenrolar dos
acontecimentos se revela uma armadilha de cobiça, ambição, culpa e desconfiança que
põe em questão os valores mais enraizados na cultura média norte-americana como,
por exemplo, a obsessão pelo dinheiro. Jacob, um desempregado sem rumo na vida, em
determinado momento afirma que com sua parte finalmente vai poder ser feliz, ter mulher
que goste dele e construir sua família graças, ironicamente, ao dinheiro. Um
Plano Simples é assim, cheio de pequenas e instigantes idéias em cada cena. À
tentativa desesperada de Hank de voltar atrás e devolver a sacola com os 4 milhões, sua
esposa vem com o discurso: até quando ele pretendia seguir com a vida medíocre que os
dois levavam, entre os deveres do trabalho e da casa e a constante "falta de
dinheiro"? e é preciso dizer, os dois levam uma boa e cômoda vida de classe
média, eles definitivamente não precisam do dinheiro, apenas o desejam.