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Parece mentira mas mesmo nos últimos meses do século 20 um filme ainda
consegue ser polêmico falando sobre sexo. Romance, quinto filme da diretora e
escritora Catherine Breillat, que estreou em abril na França e está em cartaz no Brasil,
causou alvoroço por conter cenas de sexo explícito, quase tanto quanto O Último
Tango em Paris e o Império dos Sentidos na década de 70. Breillat quer
rediscutir a arte e a pornografia.
Romance conta a história de Marie, uma mulher jovem e bonita casada com
Paul, um modelo fashion e sem apetite sexual. Marie e Paul formam um belo casal
moderno, vivem em um apartamento clean, se vestem com cores claras, comem comida
japonesa e saem para dançar com os amigos. Tudo parece ótimo, mas na cama nada vai bem.
Paul simplesmente não toca na mulher há meses, prefere ver esportes na TV. Marie não se
conforma com esse destino. Ela diz para o marido que pode trai-lo, pois ela quer sexo e
ele não quer satisfaze-la, e que ele não pode nem pensar em ter outra, se não quer com
ela não pode ter com ninguém. Com este pensamento, Marie vai à caça. Num bar, encontra
um rapaz forte e, como veremos, bem dotado (para interpretar este papel a diretora
escolheu o ator pornô Rocco Siffredi). Os dois se encontram mais algumas vezes, e num
destes encontros acontecem os tais oito minutos de sexo explícito que justificam a
escolha do ator e a polêmica em torno do filme.
Sexo explícito à parte, o caso não parece satisfazer Marie, que passa todo o
tempo que está na cama falando de seus problemas com o marido e com o sexo. Ela parte
para outra: o diretor da escola primária em que ela dá aulas, um homem mais experiente
na conquista, apesar de mais feio e menos dotado. O diretor é um verdadeiro fetichista e
sua casa um templo sadomasoquista.
As infidelidades não são feitas às claras e Paul não sabe de nada, mas, como
Marie já imaginava, a simples desconfiança já aguça os sentidos do marido. Os dois
transam de maneira fria e interrompida, mas o ato é suficiente para Marie engravidar, sem
que o filho seja necessariamente de Paul. A gravidez dá novo rumo à vida de Marie e a
seu casamento. Paul passa a prestar mais atenção na mulher, mas também fica ainda mais
chato. O final pode se dizer que seria um espécie de redenção. Marie muda ao longo de
suas descobertas sexuais e passa de uma jovem pura que se veste de branco para uma mulher
mais provocante em vermelho e termina como uma mulher madura vestindo preto.
O enredo é parecido com o de A Bela da Tarde, de Luís Buñuel, e o
filme tem algumas cenas bem surrealistas, mas a diretora não esconde suas influências.
Ela diz que achou que em La Belle de Jour Buñuel tinha uma proposta boa mas que se
deixou prender por conceitos burgueses e não "foi até o fim" com relação ao
sexo. Breillat diz gostar muito de O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima, e de O
Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, mas para ela este último se perde com
muito psicologismo. A diretora escreveu seu primeiro livro, O Homem Fácil, com 17
anos, em 1968, e já causou polêmica, o livro chegou a ser censurado. Desde então
Breillat publicou seis romances, colaborou em diversos roteiros e dirigiu cinco filmes.
Nos anos 70, ela quis fazer imagens pornográficas e acabou desistindo pois naquela época
toda representação explícita de amor físico era considerada, pela lei, como pornô e
seu filme acabaria sendo classificado como tal e ficaria confinado a um gueto.
Breillat queria com Romance fazer um filme essencialmente
feminino e mostrar o maior problema das mulheres francesas modernas,
o sexo. Ela diz que este o assunto em qualquer grupo de mulheres conversando
e queria que estas mulheres se identificassem ao ver o filme. Ela queria
ainda fazer da arte pornografia, ou vice-versa. Talvez ela tenha se
preocupado demais em mostrar o sexo de perto e ao vivo e tenha se esquecido
do elemento sensualidade. O filme está longe de ser "quente"
como seus semelhantes dos anos 70, tudo em Romance é muito intelectualizado
e distanciado, é difícil crer nas atitudes e nos diálogos de Marie,
não porque eles sejam muito ousados ou qualquer coisa parecida, mas
justamente pelo contrário, são muito frios. Marie é uma chata e parece
nunca ter prazer, o que deixa meio sem justificativa toda sua ânsia
por sexo e sua busca. Parece que ela não está procurando relações por
tesão e sim por que pensa que não pode ficar sem sexo, tudo acontece
muito mais em sua cabeça que em seu corpo. , A própria diretora reconhece
que uma coisa que com certeza o filme não tem é romance. Ela conta que
um dia riscou o título do filme com um "X", num momento de
insatisfação. O "X" acabou sendo incorporado ao cartaz do
filme, que é uma foto em close de uma masturbação feminina.
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