|

O cineasta estreante Marcelo Masagão queria contar o século XX em um
longa-metragem que não fosse tão longo, afinal uma herança que ele guarda de sua
experiência como produtor e idealizador do Festival do Minuto é a concisão. Mas
não era só isso, ele queria fazê-lo apenas com imagens. "Jean-Claude Bernadet
disse em um artigo sobre o filme algo tão esclarecedor que se torna fundamental citá-lo.
Segundo ele, muito se diz que este é, ou foi, o século da imagem mas isto é uma
mentira; este é o século da imagem acompanhada da palavra. Sempre que vemos uma imagem
ela está junto a uma fala, ou explicação sobre o seu significado, isto tira toda sua
potencialidade. Queria deixar as imagens tão livres quanto possível, só que não
consegui me livrar da palavra escrita, mas ela é diferente porque a palavra escrita
envolve uma reflexão maior. Além disso, o que eu escrevi não é uma explicação, é
simplesmente um dado que vai te fazer pensar sobre o que você está vendo",
esclarece Masagão sobre Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos, que estréia no
Rio e em São Paulo nesta sexta-feira, dia 6 de agosto.
O filme usa uma estrutura pouco comum, que é a completa ausência de locutor, e
coloca toda sua força na associação de imagens. Algo como já fez Godfrey Reggio nos
filmes Koyaanisqatsi e Powaqqatsi, mas ao mesmo tempo é completamente
diferente. Reggio utilizou imagens que nos eram mais incomuns, as vezes até mesmo
estranhas, e Masagão utiliza imagens quase sempre já clássicas do nosso século, que
ele colheu em arquivos de imagem da Europa e dos Estados Unidos, e alguma coisa do Brasil.
A edição também é outra, Masagão não coloca uma imagem sucedendo a outra
simplesmente, na maioria das vezes elas se fundem, com alguma influência de Dziga Vertov
e Eiseistein. Inclusive são usadas algumas cenas de filmes clássicos de Vertov, Buñuel,
Buster Keaton e Meliès. Para ajudar a prender a atenção do espectador, Masagão casou
suas imagens à música da compositor belga Win Mertens, que não foi composta
originalmente para Nós que Aqui Estamos. Masagão escolheu algumas obras de
Mertens, pagou os direitos autorais e depois sonorizou o filme.
Nós que Aqui Estamos... não é nem documentário nem ficção, é um
"filme-memória". As imagens mostradas são todas verdadeiras, mas as pequenas
histórias contadas em legendas que aparecem e desaparecem suavemente sobre as personagens
das fotos são fruto da imaginação do diretor, que é também o roteirista, o
pesquisador, o editor e o produtor do filme. "Chamo de filme-memória porque acho que
está palavra é um pouco esquecida por nós, e freqüentemente mal utilizada. Vivemos
numa época que costumo chamar de Presente Permanente, tudo tende a ser contado no
presente e o passado fica esquecido, isso é muito perigoso, mas o contrário também. É
preciso trazer à tona a questão da memória não para lembrar e sim para conscientizar e
questionar o presente." Quanto às pequenas histórias, ele diz que são inventadas
mas que poderiam ser verdadeiras, nenhuma delas é absurda ou inverossímil. "Eu
simplesmente imaginava o que fizeram estas pessoas durante o tempo em que viveram, muitas
delas passaram apenas uma vez por uma camêra de filmar ou uma máquina de fotografar e
assim entraram para um registro histórico, estão num arquivo de imagens. A história do
século também é a história destas pessoas e pode ser contada através delas".
Nós que Aqui Estamos foi um trabalho de três anos e começou com o
apoio de uma bolsa da Fundação MacArthur para projetos latino-americanos. O trabalho de
pesquisa histórica foi extensivo e muitas vezes norteado pelos estudos do historiador
Eric Hobsbawm, em especial o livro A Era dos Extremos. Masagão utiliza a
delimitação de Hobsbawm para falar do breve século XX, que teria começado com o
início da Primeira Grande Guerra e terminado com o fim da União Soviética.
"Acredito que os problemas que estamos vivendo agora neste finalzinho de século já
fazem parte do século XXI, a AIDS, a Internet e a violência tal qual vemos hoje já são
questões para o homem do século que vem." Isso explica também porque Masagão
utilizou mais imagens que vão de 1912 até mais ou menos os anos 70 e pouquíssimas de 70
para cá. "Além disso fica mais charmoso e menos repetitivos com imagens mais
antigas e clássicas. Quase todo mundo já conhece estas imagens de algum lugar, mas elas
estão distanciadas. Se eu usasse muitas cenas da vida cotidiana ficaria mais cansativo,
todos teriam a sensação de que já viveram ou viram aquilo muito recentemente. Mas é
claro que não resisti a algumas cenas marcantes da década de 90, como a daquele chinês
em frente aos tanques de guerra", diz ele.
O trabalho de Masagão não foi o de filmar, já que 95% das imagens já estavam
prontas, e sim de editar. "Passei mais de 2.000 horas na frente de um computador
fazendo a edição. Não era um Avid , mas o que chamo de seu primo pobre, um Pentium 240
MHZ com uma placa digitalizadora chamada Perseption, o software utilizado foi o Speed
Razor 3.5, muito bacana e eficiente. Este é um sistema de edição não-linear
relativamente barato, custou U$ 7 mil e fez tudo perfeitamente. A tecnologia é
maravilhosa e tem que ser descoberta pelos cineastas brasileiros. Não se pode fazer um
filme que é um elefante branco e que nunca vai se pagar. Acho que a película caminha a
passos largos para ser uma nostálgica peça de museu", analisa Masagão.
"O principal para fazer um documentário é
ter uma idéia inicial, um objetivo. Em documentário não existe um roteiro feito com
antecedência, sua idéia inicial é complementada ao longo do processo, ela pode até ser
mudada, mas inicialmente tem que existir um pressuposto. Eu tinha dois objetivos que me
guiaram ao longo do trabalho e impediram que eu me perdesse no meio das imagens e das
histórias. Um era discutir a banalização da morte e consequentemente da vida. Nunca se
criou tanto como neste século, mas nunca se destrui tanto também. O outro tinha mais
relação com a forma, isto é, como contar. Você pode até ter uma história fraca para
contar, mas se você o faz de maneira interessante ela ganha vida", diz Masagão, que
para melhor atingir seu primeiro objetivo utilizou uma pesquisa psicanalítica, que consta
nos créditos. Aliás ele teve dois gurus, Hobsbawn para a parte histórica e Freud para a
psicanalítica. "A psicanálise é um estudo deste século e para contar estas
pequenas histórias, como a do soldado com choque de guerra, tive que me informar mais a
respeito. Outra coisa fundamental para mim era entender a pulsão de morte."
Para Masagão a experiência com Nós que Aqui Estamos... foi
muito gratificante, o filme já ganhou vários prêmios desde seu lançamento:
quatro no III festival de Cinema de Recife, quando fez sua estréia para
o público e a crítica, melhor filme pelo Júri Oficial e pelo Popular,
roteiro e direção; melhor documentário no XV Festival Internacional
do Uruguai; e melhor filme do IV Festival "É Tudo Verdade".
Mas o trabalho também deixou seus traumas. "A Lei do Audiovisual
é ridícula. Onde já se viu deixar que os artistas tenham que dialogar
com diretores de marketing de grandes empresas, pessoas que não sabem
nada de cultura. É esse tipo de gente que tem o poder de dizer qual
projeto vai receber financiamento e qual vai continuar na gaveta. Era
constrangedor eu falando da banalização da morte com um sujeito desses.
Como a pesquisa foi financiada pela bolsa da MacArthur e a edição também
já estava pronta eu só tinha que captar recursos para a Kinescopagem
e quando ia às reuniões com os diretores de marketing já levava uma
VHS com o filme pronto. Fiz um teste e deixei a fita sempre em um mesmo
ponto, e não no começo, quando recebia o não definitivo e ia pedia o
material de volta a fita ainda estava no mesmo ponto, quer dizer, absolutamente
nenhum destes diretores analisou o material que tinham em mãos",
revolta se Masagão. Toda essa dificuldade mesmo para um filme barato
- U$ 140 mil, dos quais 80 mil foram consumidos com direitos autorais
a mais de 40 instituições ou pessoas em quatro continentes. Depois de
tudo a finalização acabou sendo financiada por um órgão do governo,
a RioFilmes, para onde Masagão tece vários elogios. "Quando pensei
que toda essa loucura tinha acabado e já estava com as latas do filme
na mão me informaram de uma parte que eu simplesmente havia esquecido,
a divulgação. Fiquei muito envolvido com isso tudo e ainda não estou
pensando em nenhum novo projeto", contou Masagão que depois de
sete anos à frente do Festival do Minuto viu o projeto paralisado por
falta de patrocinador, apesar de dentro da sua proposta ser um evento
de sucesso que já recebeu milhares de trabalhos de vários países, todos
dos mais diversos estilos com apenas uma coisa em comum, cada um tinha
necessariamente um minuto.
|

Yuri Gagarin, o pai, conheceu a luz elétrica em 1931

Yuri Gagarin, o filho, conheceu o espaço em 1961

Chen Yat-Sen, 1931-1998, professor de literatura, estudioso de Baudelaire
|