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A trilogia da paixão

Alice Gomes

O Viajante, de Paulo César Saraceni, que estréia nesta sexta, 11 de junho, é um filme delicado e controvertido. À primeira vista pode parecer um filme cheio de defeitos técnicos e pretensões. Pode se ver só problemas: de som, de continuidade, de montagem e até de roteiro. É preciso ter cuidado para que estas falhas não atrapalhem a percepção de um filme sensível, literário, autoral e operístico. O Viajante é o último filme de uma seqüência dentro da obra de Saraceni: a Trilogia da Paixão, iniciada há 37 anos com Porto das Caixas (1962) e seguida de A Casa Assassinada (1970).

A Trilogia da Paixão marca o encontro entre a obra de Saraceni e a do escritor Lúcio Cardoso, segundo o diretor um dos maiores autores modernos brasileiro, injustiçado pela critica e pouco conhecido pelo público. "Um dia quando os brasileiros descobrirem o Brasil e a literatura brasileira vão levar um susto com a beleza que Lúcio criou", profetiza Saraceni. Os romances de Lúcio são densos, com diálogos chocantes onde a mulher tem um papel central, especialmente na trilogia da paixão, na qual também a vontade de amar com liberdade e intensidade ultrapassa fronteiras.

A amizade entre o cineasta e o romancista começou na década de 50 e juntos eles planejaram Porto das Caixas. Lúcio escreveu o argumento e Saraceni fez o roteiro e a direção, sempre fiel às idéias originais. Enquanto o filme estava sendo feito, Lúcio sofreu um derrame e ficou com o lado direito do rosto paralisado, o que o impedia de falar e escrever. Quando Saraceni voltou das filmagens ficou muito comovido com a situação do amigo e lhe prometeu que faria A Casa Assassinada tal qual estava escrita, mas outras oportunidades surgiram para o cineasta e Lúcio não pode esperar, sofreu um outro derrame em 68 e desta vez fatal.

O tema de Porto das Caixas era a miséria da mulher na sociedade brasileira machista de 1962. "A mulher era uma escrava do lar. Eu sempre fui muito sensível a este assunto e o filme era um grito de revolta da mulher. Era um filme muito feminino, como era o argumento. Fui fiel a Lúcio como Bresson foi fiel a Bernanos. Os escritos de Lúcio eram geniais e extremamente visuais e cinematográficos, eu amava até mesmo seus diálogos incompreendidos", conta Saraceni em seu livro Por dentro do Cinema Novo: Minha Viagem.A Casa Assassinada falava da morte pela doença, o câncer da personagem principal presente em todo o filme, e da paixão sufocada que ultrapassa obstáculos. O crime aparece aqui, e nos outros dois filmes da trilogia, como uma libertação. As mulheres matam, quase que sem culpa, para poder amar intensamente, tudo é feito sem suspense e com a cumplicidade do espectador.

O Viajante foi um romance inacabado e publicado post-mortem graças ao esforço do escritor Otávio de Faria, que reuniu os textos de Lúcio. Otávio era um grande amigo da dupla Saraceni / Lúcio Cardoso, e foi ele quem apresentou um ao outro. O romance conta a história de três paixões intensas que modificam a vida de seus protagonistas em uma pequena cidade do interior mineiro. Don’Ana de Lara (Marília Pêra) é uma viúva rica e poderosa que não depende de ninguém e tem pavor de ser motivo de piedade. Por causa de sua grande amargura diante da doença do filho, priva-se de uma vida social e de vontades próprias. Sinhá (Leandra Leal) é uma menina-moça que sai de um arraial para morar com uma tia e seu marido (Nelson Dantas). Tudo seria sempre igual se não fosse a chegada de um cacheiro viajante sedutor (Jairo Mattos).

Don’Ana de Lara é a personagem central, complexa e intensa. Marília Pêra faz uma interpretação teatral e marcante. "Queria fazer a Don’Ana como quem interpreta uma personagem de uma ópera. Saraceni me deixou completamente à vontade e foi um trabalho muito difícil, mas muito gratificante", contou a atriz na sessão de lançamento do filme na quarta-feira, 09 de junho, no Espaço Unibanco de Cinema do Rio.

A estrutura do romance é complexa, mas com uma narrativa não linear os pontos de tensão ficaram espalhados ao longo do filme, o que equilibra uma história que talvez tivesse um começo monótono e um final muito conturbado. Os diálogos são originais de Lúcio. "Mais uma vez, fui fiel à meu grande amigo e aproveitei para utilizar um pouco de sua poesia. Lúcio era um grande poeta, de uma sensibilidade incrível", conta o diretor de O Viajante.

A Trilogia da Paixão na verdade não marca só o trabalho de Saraceni com Lúcio Cardoso, outras parcerias estão presentes; ora em apenas dois filmes; ora nos três; e às vezes até em outros trabalhos do cineasta, como é o caso do clássico diretor de fotografia Mário Carneiro que participou de toda a trilogia e de vários outros filmes de Saraceni, inclusive do premiado curta Arraial do Cabo (1959). Os dois primeiros episódios tiveram uma especial trilha sonora de Tom Jobim, que não só não cobrava como quase bancava toda a parte de gravação da trilha, ficando só com os direitos sobre ela. Nelson Dantas está presente nos dois últimos filmes e chegou a ser cogitado para um papel em Porto das Caixas, mas não pode fazê-lo.

Tirando as falhas técnicas já citadas e relevadas, um outro problema do filme é a participação de Milton Nascimento, que foi anunciada com muito alarde e não se justifica. Quase como a participação de Caetano Veloso no Orfeu, de Cacá Diegues. Liberdades que estes grandes autores do cinema brasileiro têm o direito de cometer em filmes que são projetos antigos e apaixonados.

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Marília Pêra e Jairo Mattos

 

 

 

 

 

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Saraceni e Marília Pêra no set

 

 

 

 

 

 

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Milton Nascimento