| O diretor espanhol Julio Medem não é um conhecido do público brasileiro, mas seu quarto filme, Os Amantes do Círculo Polar, chegou por aqui fazendo sucesso antes mesmo de entrar em cartaz. O filme esteve entre os competidores do Festival de Gramado deste ano e saiu de lá como o maior sucesso desta edição do evento, com cinco Kikitos - Melhor Diretor, Melhor Roteiro, Melhor Música, Prêmio da Crítica e Prêmio do Júri Popular (Latino). Depois esteve no Festival do Rio, em setembro, onde foi bem recebido, e na sexta-feira, dia 12 de novembro, estreou em circuito comercial. O filme conta a estória de dois amantes que estão prestes a se encontrar no limite do Círculo Polar Ártico e enquanto se preparam para o encontro relembram como começaram a se envolver e como chegaram até ali. Ana e Otto se conheceram quando tinham oito anos, e viviam momentos difíceis de suas vidas infantis; Ana acabara de saber da morte do pai, e Otto estava prestes a saber da separação de seus pais. Por acaso as duas crianças se esbarram; Ana passa a achar que aquele menino na sua frente era seu pai reencarnado, e Otto fica intrigado com a menina que o encara tão profundamente. A partir daí o filme começa a ser uma sucessão de coincidências que costuram o roteiro, como por exemplo, o grande acaso de a mãe de Ana, Olga, casar se com o pai de Otto, Álvaro, o que faz com que Ana e Otto se vejam diariamente na volta da escola. Quando Álvaro conta ao filho que vai deixar sua mãe, o pequeno Otto fica transtornado e como reação passa a desenvolver em sua cabeça uma noção de que o amor é eterno. Ele jura à mãe que nunca a abandonará, mas ele não sabia ainda que anos mais tarde outro amor eterno, porém distinto, o faria deixar de viver com a mãe para ir viver na mesma casa de sua amada. Durante anos Ana segue acreditando que Otto é seu pai e não escuta o menino a sua frente, mas quando a adolescência e a sexualidade começam a chegar ela cai na real e percebe que Otto está apaixonado por ela. Ana decide também se apaixonar por ele, parece que assim, racionalmente, mas na realidade foi só sua maneira de amá-lo que passou para um outro estágio, pois desde pequena ela já estava fascinada por Otto, sem que ela própria se desse conta. Numa noite de ventania os dois estão juntos vendo um livro e quando estão na página do Círculo Polar Ártico falam sobre o sol da meia-noite e Ana beija Otto, que de tão emocionado não consegue reagir. Este primeiro beijo, sobre fotos da Finlândia, faz com que o círculo polar se torne simbólico para os dois. A partir daí os amantes adolescentes vivem uma intensa paixão às escondidas; até o dia que Otto vai visitar sua mãe e a descobre morta. Tomado de culpa por tê-la abandonado, Otto passa a tratar Ana de outra maneira e depois de poucos dias foge sem deixar explicações. Sem notícias de Otto e achando que as coincidências boas de sua vida tinham terminado, Ana encontra o professor primário de Otto e os dois se casam. Paralelamente Otto começa a dar um rumo para sua vida vazia e passa a ser piloto de avião, uma fascinação de infância que se relaciona com a origem de seu nome, fazendo entrega de correspondência entre Espanha e Finlândia. Até que chegamos no ponto do princípio do filme, quando Ana espera Otto numa cabana na Finlândia e os dois recapitulam suas vidas, quando Ana está a espera da grande coincidência de sua vida e Otto indo ao encontro dela para fechar um ciclo em sua vida. Com esta estória o diretor Julio Medem faz um filme sobre diversas formas de amor; o amor romântico e eterno, até depois da morte; o amor moderno e efêmero; o amor de mãe para filho, e vice-versa; o amor infantil, o juvenil e o maduro; e o amor construído mentalmente. Narrado na primeira pessoa e visto do ponto de vista dos dois amantes, o filme alterna cenas narradas por Otto com cenas narradas por Ana, a estória adquire a subjetividade e a parcialidade de seus narradores. O roteiro é estruturado nas coincidências e nos ciclos, e assim se vêem os protagonistas: Ana vê sua vida como uma sucessão de coincidências e Otto vê a sua como um ciclo incompleto.
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