O cineasta João Batista de Andrade sempre se interessou pelos temas que
falassem da realidade brasileira; sejam eles político-sociais O Homem que virou
Suco, de 1979, seu filme mais premiado e de maior sucesso ou históricos
como O país dos Tenentes, de 1987. Depois de O Cego que gritava Luz (96),
um filme situado na Brasília contemporânea, Andrade volta ao tema histórico com seu
novo O Tronco, adaptação do romance homônimo do escritor goiano Bernardo Élis,
publicado em 56.
Andrade nasceu na cidade de Ituitaba, Minas Gerais, e viveu na região do triângulo
mineiro até 1959, quando foi morar em São Paulo para estudar engenharia, então com
vinte anos. "Toda a minha infância ouvi muitas estórias sobre a vida política
violenta de Goiás. O triângulo mineiro faz parte da região do cerrado e me identifico
muito com Goiás, sua história e sua literatura. Daí minha paixão por Bernardo Élis e
especialmente por este livro, O Tronco, que há trinta anos pensava em
filmar", conta o diretor. "Me identifico muito com a personagem central da
estória, Vicente Lemos, que é um idealista sem força que precisa recorrer à ajuda da
força do outro para defender seus ideais. Só que quando o outro vem com sua força traz
junto sua própria lógica. Isto me faz lembrar muito minha própria experiência de
idealista militante e a realidade da fragilizada esquerda brasileira", completa
Andrade, que diz ainda que a estória é muito complexa porque cada personagem tem seu
senso de justiça e só pensa em si. "Vicente é o único personagem que tem uma
visão universal de justiça e quer fazer com que todos a percebam."
O filme se passa no interior de Goiás em 1929 e conta a estória de Vicente Lemos
(Ângelo Antônio), um jovem idealista que depois de viver na capital volta à sua cidade
com a família, a mulher Lina e a filha Alice. Vicente volta como coletor de impostos e
homem de confiança do governo para acabar com a tirania da família Melo. Só que não é
simples destronar coronéis no esquecido e longínquo cerrado brasileiro; e para piorar a
situação Vicente é parente dos Melo e lhes deve gratidão, por que eles o ajudaram a ir
para a capital quando ele precisou.
O patriarca Pedro Melo acusa Vigilato de roubar suas terras e seu gado e como vingança
o mata, ficando com toda sua herança e não deixando nada para a viúva. Vicente tem que
fazer o relatório do ocorrido e quer mandar o caso para a justiça decidir se os bens
pertencem aos Melo ou à viúva. Furiosos, os Melo botam fogo no escritório de Vicente
durante a noite e roubam o processo. Vicente vai até a capital buscar reforços e traz o
juiz Carvalho (Antônio Fagundes) com uma tropa numerosa de soldados. Começa então uma
guerra feroz entre a lei do estado e a lei dos coronéis e seus jagunços.
Paralelo a tudo isso Vicente revive sua antiga paixão por Anastácia (Letícia
Sabatella), sua primeira namorada e filha de Pedro Melo. Anastácia está casada com um
homem rústico e seu filho e a filha de Vicente se apaixonam.
A produção do filme começou efetivamente no princípio de 98, e o primeiro trabalho
foi achar uma locação. Andrade queria uma cidadezinha bandeirista mas não achou nada
satisfatório e resolveu montar uma cidade cenográfica em Morro Cabeludo, perto de
Pirenópolis (GO). "A paisagem maravilhosa e infinita de Morro era perfeita para o
que eu queria. O local é um parque nacional de preservação e foi preciso uma
autorização do governo para construir a cidade cenográfica. E o resultado foi ótimo na
hora de filmar porque eu podia virar a câmera para qualquer lado sem precisar me
preocupar em aparecer alguma coisa que não pudesse pertencer àquele local e àquela
época", diz Andrade. O orçamento total do filme foi de R$ 2,7 milhões e a
produção durou um ano e meio. "Fazer cinema no Brasil é um trabalho árduo e
precisa de muita disposição. Tudo que consegui foi fruto da minha grande vontade. As
leis de incentivo a cultura são sempre temporárias, a única coisa que mantém o cinema
brasileiro vivo através do tempo é a paixão dos cineastas, que escavam as condições
para realizar suas produções."
A fotografia de O Tronco foi feita por Jacques Cheuiche e é um dos pontos altos
do filme, as imensas paisagens do cerrado ganharam uma cor de terra avermelhada e queimada
como só uma terra castigada pelo sol pode ter. "O filme ficou muito bonito e eu
queria que ele fosse visto pelo grande público que é o povo, por isso fui muito direto
ao contar a história e evitei metáforas e flashbacks", explica Andrade orgulhoso de
seu trabalho.
O Tronco será a única produção latino-americana a participar da competição
oficial do Festival de Xangai, que acontece em outubro. O filme de João Batista de
Andrade ficou entre os dezenove títulos selecionados entre os trezentos e trinta e oito
inscritos.
O próximo projeto de Andrade é uma outra adaptação literária, o livro Veias e
Vinhos, de Miguel Jorge, um dos escritores contemporâneos mais importantes de Goiás.
O projeto deve começar a ser filmado no começo do ano que vem; por enquanto Andrade
ainda está trabalhando no lançamento de O Tronco em outras cidades do país.