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O papel da televisão na co-produção e financiamento de
projetos audiovisuais e sua possível simbiose com o cinema foram as questões abordadas
no painel de terça-feira (dia 28), do seminário Internacional do Festival do Rio. Para
discutir o assunto, integravam a mesa de debates Pierre Chevalier, diretor da unidade de
ficção da emissora francesa Sept Arté, Kelley Nichols, vice-presidente da área de TV
paga da Warner, Paulo Lengruber, da Sony Television, e Iona Macedo, diretora de produção
da Columbia Tri Star.
Um dos argumentos que mais se repetiram foi o da dificuldade que
as produtoras independentes enfrentam para terem acesso às emissoras de TV. "Deve-se
tentar conciliar o discurso dos produtores com a intenção dos canais de atingirem seus
públicos e promoverem seus próprios elencos", considerou Iona, que produz em
parceria com a Rede Bandeirantes duas sitcoms brasileiras, Santo de Casa e Guerra
dos Pintos. "A idéia é rapidamente expandir a área de criação de produtos
originais por causa do enorme potencial criativo deste país. Em cinco anos estaremos mais
aptos a parcerias com produtoras, mas agora ainda é difícil", reforçou. Como
viabilidade deste tipo de parceria, foram mencionados os casos das séries Confissões
de Adolescente e Como Ser Solteiro, realizados em co-produções entre empresas
independentes e os canais TV Cultura e Multishow, respectivamente.
Também bastante discutido foi o relacionamento entre televisão
e cinema e os potenciais desdobramentos benéficos para ambas as partes. "A TV aberta
é imprescindível para o cinema nacional pois ela tem o poder de formação de público.
Os canais podem estimular o interesse das pessoas pelos filmes realizados aqui",
completou. Paulo citou como exemplo as platéias de Simão, o Fantasma Trapalhão
(com 1,6 milhão de espectadores) e Zoando na TV (com 960 mil), produzidos pela
Globo Filmes. Não só do ponto-de-vista financeiro, o elo TV-cinema também pode ser
frutífero quanto ao aproveitamento de idéias e concepções de projetos. "Muitos
dos roteiros de longa-metragens que recebemos dariam excelente telefilmes ou minisséries.
A gente tem que planejar isso a longo prazo e contar com apoio das TVs para tentar
fazê-lo", sugeriu Iona.
Em relação a compras de programas latino-americanos, Pierre
reconheceu que esse volume de transações é pequeno no seu canal: "Temos
dificuldade de comprar programas que se encaixem na nossa grade, mais voltada para
abordagens temáticas e documentaristas, no formato de 90 minutos". O diretor de
ficção da Sept Arté (que co-produziu com dez países a série 2000 visto por ...,
exibida no Festival do Rio) também disse que, embora tente muitas vezes incorporar
produtos estrangeiros, a presença da língua francesa é muito imperativa em sua
programação: "Nosso voluntarismo de preservar a língua original acabou se voltando
contra nós e os espectadores. Alguns programas são formidáveis, mas sendo sempre
legendados acabam perdendo o impacto. No horário nobre, nossa exibição é
predominantemente francesa". Segundo Kelley, a problemática da língua não é tão
estreita: "Eu tenho certeza de que A Vida É Bela se sairá bem em qualquer
canal, independente do idioma. Há sempre o interesse básico de que o filme tenha
público".
A presença ainda incipiente da TV a cabo no Brasil foi
comentada por Paulo, que calculou em 7% sua participação no país. "A TV a cabo
ainda tem muito o que crescer. A Argentina tem a televisão a cabo na faixa de 55%. No
Brasil, em 15 ou 20 anos, podemos chegar a 30%. Mais do que isso é difícil por causa das
condições sócio-econômicas desfavoráveis", observou ele, que louvou a
existência do Canal Brasil, há um ano no ar: "É uma iniciativa excelente pois cria
um esforço de segmentação positivo".
Os debatedores avaliaram o impacto das novas tecnologias nas indústrias de
cinema e TV. "Estão surgindo equipamentos de alta definição, mais práticos, leves
e com enorme qualidade de grãos. Isso ficará mais acessível em um ou dois anos, a tal
ponto que os formatos de 16mm e 35 mm ficarão no chinelo", assinalou Iona. "Eu
acho que é muito importante a chegada do digital na formatação dos produtos
audiovisuais. Daqui a dez anos é possível que um terço das produções seja feito em
digital. Os EUA têm o objetivo de abandonar o sistema analógico totalmente em
2006", completou Pierre. Para a produtora Lucy Barreto, o seminário mostrou que é
possível ser otimista no quadro de relações entre cinema e TV: "Os produtores
devem procurar ser criativos nas maneiras de se aproximarem das emissoras, construindo
caminhos e alternativas. Existem propostas e existem espaços também. Não vejo razões
para pessimismo".

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