|

No último dia do Seminário Internacional
promovido pelo Festival do Rio, o assunto foi exibição. Para discutir o tema, sobretudo
quanto ao aspecto da onda de multiplex que se espalha pelo país, participaram do debate
Marcelo Mendes, diretor de programação do Grupo Estação, José Carlos Oliveira,
diretor geral da United Cinema International (UCI), Francisco de Paula Pinto Júnior,
vice-presidente de Conselho Administrativo e Planejamento do Grupo Severiano Ribeiro,
Claude Eric Poiroux, diretor da Europa Cinemas, e Paul Del Rossi, presidente da Hoyts
General Cinema.
"O multiplex já é uma realidade no Brasil e no
mundo", disse José Carlos que, em regime de joint ventures entre a Paramount e a
Universal, administra 61 salas no país, prevendo que esse número chegue a 100 até o
final do ano. Para José, o benefício imediato a ser obtido com os multiplex é o aumento
das platéias: "Em Recife o público cresceu 40% e, em Salvador, 35%. Estamos criando
um público novo. Muitas pessoas estão voltando aos cinemas de multiplex devido ao
conforto, à segurança e à facilidade de acesso ao local".
Na avaliação de Francisco de Paula, a instalação de
multiplex deve ser feita com parcimônia e disciplina para não asfixiar o mercado.
"Que eles venham com mais coordenação e sem autofagia. Um multiplex em frente ao
outro mata os dois e ainda prejudica o público", assinalou ele, que diferenciou os
públicos de hoje do de outrora: "Antigamente havia clientes de cinema, como do São
Luiz, Odeon e o Metro de Copacabana. Hoje há clientes de filmes, escolhidos pelo horário
mais conveniente".
O problema da concorrência direta entre multiplex também foi
abordado por Claude, que citou um exemplo fracassado de proximidade de 50 metros entre
dois parques cinematográficos desta natureza. O diretor da Europa Cinemas (uma espécie
de fundo de incentivo da União Européia à exibição de filmes europeus) também
reconheceu nos multiplex a capacidade de alargamento do público: "Na Inglaterra, no
início dos anos 80, a platéia de cinema era de 50 milhões. Hoje é de 135
milhões", pontuou ele que, todavia, identificou como um problema básico nessa
estrutura de exibição "a concentração de recursos nas mãos de poucos
interlocutores".
O discurso de Paul Del Rossi fundamentou-se na tentativa de
conciliação entre o cinema comercial dos multiplex e os cinemas independentes de arte.
"Gostaríamos de ser complementares a outros tipos de salas. Damos apoio de
produção e financeiro a filmes locais e facilitamos o acesso às salas nos festivais
internacionais. A cultura local deste país é muito forte, e isso não pode ser
desconsiderado. Em cinco anos, chegaremos a 500 telas aqui, muitas delas voltadas a filmes
não comerciais", considerou ele, que abriu na quinta-feira (dia30), em Guarulhos,
São Paulo, o primeiro multiplex da Hoyts no Brasil, com 15 telas, das quais três serão
reservadas a filmes nacionais ou independentes.
Na contramão de grandiosos esquemas de exibição, Marcelo
Mendes ressaltou o diferencial do circuito Estação Botafogo, que não adere a títulos
de forte apelo comercial e privilegia cineastas autorais e/ou independentes. "O
Estação nasceu de uma experiência de cineclube, há 14 anos, e depois se tornou mais
profissional. Ele tem por obrigação e destino ser diferenciado, exibindo o que não é
exibido. O público do Estação quer a diferença e não ser mais um a comer um Big
Mac", comparou Marcelo que, em uma brincadeira com os donos de multiplex sentados à
mesa, chamou as doze salas do Grupo Estação de "monoplex de arte". Embora
tenha concordado que os multiplex possam gerar mais público, o diretor de programação
do Estação observou que essa lógica não é inversa: "Esse aumento das platéias
não será capaz de acompanhar o aumento das salas. Os cinema de rua estão acabando.
Agora os multiplex vão ter que se adaptar a outros multiplex, além de disputarem entre
si títulos e cópias de filmes".
Outra questão discutida no seminário foi o preço dos
ingressos como obstáculo ao acesso aos filmes. Marcelo citou o caso do Festival do Rio,
cuja seção Cine Brasil levou gratuitamente 28 filmes da safra nacional dos últimos
cinco anos a salas do subúrbio: "No começo ia pouca gente, mas depois a
freqüência chegou a 300 pessoas por dia em uma sala de 120 lugares". Para ele, a
redução de preço não necessariamente corresponde a um crescimento de público, devido
às condições econômicas precárias da maioria da população brasileira: "Haja
marketing para convencer alguém que ganha menos de R$ 300 por mês, que é 97% do país,
que ir ao cinema é importante, mesmo a um custo mais baixo. Essa equação é muito
complicada". "Nossas experiências com preços promocionais não foram
bem-sucedidas no aumento da platéia. Na verdade, foram desastrosas e não planejamos
repeti-las", complementou José Carlos Oliveira.
Para Claude, o importante do seminário foi ter podido perceber
a existência de duas tendências do público, o que pode amenizar a competição entre as
salas de cinema: "Há duas demandas diferentes, que não são inimigas nem
excludentes, e sim complementares. Há espaço para ambos os tipos de filmes". Já na
opinião do exibidor Ugo Sorrentino, o que prevaleceu no debate foi o controle exercido
pela cinematografia norte-americana sobre a estrutura de exibição do Brasil: "A
posição colonialista deles é muito clara. Eles não estão aqui para botar azeitona na
empada do cinema brasileiro. Se o filme é bom e dá bilheteria, eles exibem. Se não,
azar o nosso".

|
|