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Federico Fellini - hoje um "monstro sagrado"da sétima arte - antes de alcançar posição relevante que ocupa na história do cinema, praticou longo e paciente 'fulltime' artesanal que lhe permitiu assenhorear-se dos inúmeros segredos dessa nova forma de expressão artística. Daí ter perambulado pelos estúdios italianos, ora fornecendo idéias cômicas para esta ou aquela produção, ora sugestões melodramáticas para este ou aquele filme. Escrevendo roteiros, bolando diálogos, inventando enredos, assessorando ou assistindo a diretores, desde os 19 anos de idade era figura familiar nos meios cinematográficos de sua terra. Assim, colaborou, de alguma forma, com Pietro Germi, Cesare Zavattini, Rossellini e Alberto Lattuada, entre outros, até que surgiu a oportunidade de dirigir Lo Sceicco Bianco, exibido no Brasil com o título ridículo de ABISMO DE UM SONHO.

Esse já é um filme de Fellini. Vale dizer: nele se encontram, implícito e explícito, todo o seu universo, toda a sua visão de um mundo, ou seja, o seu estilo e a sua humanidade, ambos peculiares, personalíssimos, dotados de característica poesia e realismo. ³Seus filmes - observa Alex Viany - são sempre comentários irônicos e amargos sobre a vida que tem vivido e o mundo que vai observando. Mas notoriamente a realidade felliniana confunde-se em qualquer plano com a fantasia e o fantástico. Pode-se mesmo dizer que, para Federico Fellini, os fatos da vida só adquirem vivência e validade quando passam pelo filtro de sua fantástica imaginação, quando são coloridos por sua inesgotável fantasia².

É o que se pode ressaltar neste O SHEIK BRANCO. Nele o famoso cineasta parte de sua experiência pessoal como ex-escritor de fotonovelas para satirizar essa forma barata de literatura, responsável pela deformação das mentes e dos espíritos, geradora de um desbragado romantismo que infunde nos seus leitores uma concepção evasionista e falsa da vida.

Mas o que se deve destacar nesse filme, ao lado da sátira impiedosa - que não se dilui nem esmaece na farsa e na comicidade, mas, pelo contrário, mais crítica se torna quanto mais jocosa parece, - é o seu comovido amor pelo ser humano e suas perplexidades: o ser humano que assiste, decepcionado, à derrocada de sua inocência diante da realidade áspera e dura. A sonhadora Wanda, que busca no Sheik Branco o seu herói, um pobre diabo à procura também de fugas e sonhos, é uma Bovary dos nossos tempos. Desiludida, só lhe resta uma solução: o retorno ao marido prosaico, mas sólido, ao grupo familiar e social obediente a preconceitos, às normas corriqueiras e comezinhas de viver, às crenças e vulgaridades do cotidiano. É o que faz sob o olhar de pedra de um anjo. A estátua do anjo, ao final do filme, é uma promessa de perdão ou apenas uma irônica e indiferente testemunha do desvalimento e das desilusões humanas?

Mariano Torres.

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