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(Le Mur )

Um filme de Alain Berliner

Bélgica, 1998 / 67min

FICHA TÉCNICA 

Direção e roteiro: Alain Berliner
Direção de fotografia: Yves Cape
Montagem: Sandrine Deegen
Direção de arte: Pierre-François Limbosch
Música: Alain Debaisieux
Som: Olivier Hespel

ELENCO 

Daniel Hanssens, Pascale Bal, Mil Seghers, Michaël Pas, Peter Michel e Darmien Gillard. 

2000 VISTO POR... 

O Muro faz parte do projeto "2000 visto por...", concebido por Carole Scotta e Caroline Benjo (da produtora Haut e Court) para o canal de televisão francês ARTE. Jovens cineastas de todo o mundo (incluindo os brasileiros Walter Salles e Daniela Thomas) foram convidados para criar histórias que tivessem como tema a passagem de 1999 para o ano 2000. Alain Berliner foi selecionado para narrar a versão belga. Outros cineastas que participaram da série foram Hal Hartley, dos Estados Unidos, Tsai-Ming Liang, de Taiwan, Abderrahmane Sissako, do Mali, Don McKellar, do Canadá, e Miguel Albaladejo, da Espanha. 

SINOPSE 

Tradicionalmente, na Bélgica, o norte e o sul do país sempre viveram em conflito. Albert, 35 anos, é dono de uma barraquinha que vende batatas fritas bem na fronteira entre as duas comunidades. Quando ele entrega as batatas aos seus clientes, está na região de Flandres, mas quando mergulha as batatas no óleo, ao fundo da barraca, está no lado francófono de Bruxelas. 

Em cada saquinho vendido, Albert esconde uma mensagem, como nos biscoitos da sorte chineses. No dia 30 de dezembro, dezenas de pessoas fazem fila para
comprar batatas e, de brinde, ganharem uma pista de como será o futuro. Mas na manhã de 31, quando Albert chega para trabalhar, é pego de surpresa: sua barraca, situada precisamente na fronteira lingüística da cidade, na calada da noite foi dividida em duas por um enorme muro.

O DIRETOR 

Alain Berliner, que completa 37 anos em 2000, teve seu primeiro longa-metragem, Minha vida em cor-de-rosa, selecionado para a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes de 1997. O filme foi vendido para mais de 30 países e, em janeiro de 1998, recebeu em Los Angeles o Globo de Ouro de melhor produção em língua estrangeira, prêmio concedido pela Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood. O rico universo visual do cineasta é o resultado de uma estranha mistura de poesia e realidade, ternura e crueldade, que o próprio diretor gosta de definir como "realismo mágico". 

Filmografia: 

1997: Minha vida em cor-de-rosa
1998: O muro 


ENTREVISTA COM ALAIN BERLINER

Qual sua reação quando foi convidado a participar do projeto "2000 visto por..." 

Eu me perguntei em que estado estava a Bélgica às vésperas do ano 2000 e a questão lingüística me veio à cabeça imediatamente. Tive vontade, então, de fazer um filme político. Nos últimos 70 anos, o problema das línguas esteve presente na vida política belga constantemente, desde que os flamengos, oprimidos pelos francófonos, começaram a querer reafirmar sua identidade cultural. Durante este período, o crescente poderio econômico dos flamengos coincidiu com o declínio do território altamente industrializado da Valônia, que prosperou durante o fim do século XIX e o início do século XX. Hoje em dia, em Bruxelas, onde moro, estas duas mentalidades estão em conflito.

A divisão da Bélgica é inevitável na evolução política do país ou é apenas uma suposição sua? 

Eu queria fazer uma provocação, mas meu filme é um alerta. Até pouco tempo diria que esta é uma história de pura ficção mas, desde as filmagens, um certo Leo Petters reascendeu a batalha lingüística. Nós temos que levar em consideração o status de Bruxelas como uma cidade francófona situada em território flamengo, mas em que 80% da população é francófona e um quarto é formada por imigrantes. Mais recentemente, no entanto, a região flamenga encomendou uma pesquisa para saber se os flamengos realmente gostariam de se separar da Bélgica e apenas 10% responderam positivamente. Então, permanece no país um desejo de manter a unificação, mas que parece vir mais das pessoas do que dos políticos.

No filme, surrealismo e realismo mágico são usados para pôr em jogo a batalha contra a estupidez e a ignorância. Estas são formas tradicionais na Bélgica, e é claro que, como artista, você se encaixaria nessa tradição. Poderia falar um pouco mais sobre isso?

A Bélgica é um país "achatado". O céu é muito baixo, quase não há horizonte, e a imaginação inventa um espaço que não existe. Estou feliz que uma certa tendência artística tenha surgido daí. Outra reflexão possível é que um regime totalitário pode se impôr com força, intimidar, mas nunca vai controlar as pessoas por completo, pelo menos se seus espíritos permanecerem como um espaço inalienável onde o imaginário está  enraizado. É este espaço que o filme exalta.

O muro evoca o de Berlim, é claro, o que é uma escolha muito provocativa num tempo em que as fronteiras européias estão desaparecendo...

O filme de certa maneira lida com tendências fascistas. O muro existe virtualmente enquanto houver leis que proíbam algumas estações de televisão de transmitirem seus programas em outras comunidades, por exemplo. A
televisão comunitária francófona não pode ser vista em Flandres e vice-versa, o que vai contra todas as tendências européias. Este ponto ainda não entrou em discussão, mas quando o for, vai ficar claro que algumas leis são discriminatórias. Eu acho que agora é importante, mais do que nunca, permanecer atento a estas questões.

Em relação à sua carreira e ao que Minha vida em cor-de-rosa representa para ela, como você situaria O muro?

Filmamos O muro em metade do tempo necessário para filmar Minha vida em cor-de-rosa, com um décimo do orçamento e em condições consideravelmente complicadas. Mas, de certa forma, não encontrei  qualquer restrição a não ser o tema. A televisão ARTE deixa os cineastas se expressarem livremente. Eu pude me arriscar bastante, e de certa forma considero este filme experimental, porque me permitiu testar coisas que dificilmente poderia testar em um outro "segundo filme", produzido em circunstâncias diferentes. Minha vida em cor-de-rosa foi uma produção cara e eu não queria ser visto como um "diretor caro". O paradoxo é que limitações de orçamento, muitas vezes, levam a uma liberdade maior. É este o caso de O muro.

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O Muro