O Primeiro Dia é a versão para cinema de Meia-noite, filme que a dupla Walter Salles-Daniela Thomas (de Terra estrangeira) fez sob encomenda para o canal de televisão francês Arte, que convidou dez cineastas de dez países para filmar suas visões sobre a virada do milênio e assim compor a série O Ano 2000 visto por..... Os cineastas tinham um orçamento limitado mas liberdade total para suas idéias; as únicas exigências eram que o filme se passasse na noite do Reveillon de 1999 para 2000 e que tivesse duração de sessenta minutos. O que diferencia O Primeiro Dia do resto da série, inclusive de Meia-noite, são quinze minutos a mais na metragem final. Os diretores convidados para a série formam um grupo heterogêneo de cineastas independentes: Hal Hartley, dos EUA; Alain Berliner, da Bélgica; Abderrahmane Sissako, da Mauritânia; Romuald Karmakar, da Alemanha; Laurent Cantet, da França; Ildikó Enyedi, da Hungria; Dom McKellar, do Canadá; Tsai Ming Liang, de Formosa; Miguel Albaladejo, da Espanha; e Walter e Daniela, que foram chamados por causa do sucesso que Terra Estrangeira (95) fez na França. Daniela e Walter optaram por falar da realidade social carioca num belo filme rápido e nervoso. O Primeiro Dia se passa nos dois últimos dias do ano de 1999 no Rio de Janeiro, a cidade partida onde a mulher de classe média abandonada não teria porque se encontrar com um presidiário vindo da favela, a não ser por uma grande obra do acaso. Para desenvolver o roteiro Walter e Daniela se inspiraram em artigos do psicanalista Jurandir Freire Cost,a que tratavam da dificuldade de se lidar com a idéia do outro, e no livro Cidade Partida, de Zuenir Ventura, que analisa a cisão social carioca e mostra que o Rio se tornou uma cidade partida entre a classe média e a favela. Filmado em apenas três semanas, devido ao prazo limite de entrega, com um orçamento enxuto e enquanto Walter Salles filmava Central do Brasil no Nordeste, O Primeiro Dia não perdeu nada com toda esta pressa. Pelo contrário, a urgência da filmagem deu ritmo ao filme que parece acontecer em contagem regressiva. As situações vividas pelos dois personagens principais estão em constante crescimento de tensão em direção à noite do Reveillon, quando vão se encontrar e explodir. João (Luiz Carlos Vasconcelos) é um presidiário que no dia 31 de dezembro de 1999 é solto pelo seu carcereiro para ir matar um bandidinho dedo-duro que estava denunciando policiais corruptos. O único problema é que o bandidinho dedo-duro é Francisco (Matheus Nachtergaele), amigo de infância de João. João vai até a favela onde moram o filho e a mulher de Francisco sabendo que ele deve passar para visitar a criança. A favela onde foram realizadas as filmagens é a Chapéu Mangueira, no Leme, a "entrada" da favela é literalmente entre dois edifícios do bairro. O limite espacial entre as casas da favela e os edifícios é muito tênue, mas a distância social entre os moradores de uma e de outro é abissal. Neste mesmo dia 31, Maria (Fernanda Torres), uma professora de surdos-mudos, acorda, em seu apartamento no Leme, e descobre que foi abandonada pelo homem que ama. Tenta acha-lo de qualquer maneira e desesperada vai até a farmácia mais próxima comprar calmantes para se aliviar eternamente. A cena da farmácia foi toda escrita pela própria Fernanda. O destino faz com que João se refugie no telhado do prédio de Maria, de onde ela pretende se jogar exatamente à meia-noite, já que não conseguiu os remédios para dar fim ao seu sofrimento. E nesta hora, neste local, dois mundos se encontram sem tomar conhecimento um do outro. Se eles teriam chance de ter um primeiro dia juntos depois deste, já é outra estória. Quando o personagem entra na favela parece estar entrando em outro mundo, ele está andando na rua, vira e aparece em um lugar completamente diferente. É aí que está o diferencial de O Primeiro Dia; o filme mostra os dois lados da cidade. Não é um filme sobre a favela, todo filmado dentro dela, como outros já fizeram; nem é um filme sobre a classe média filmado dentro de prédios e locais habituais dos espectadores de cinema. Ao misturar estes dois mundos o filme pode chegar a causar estranhamento. Daniela Thomas contou que foi entrevistada por um jornalista carioca que se sentiu ofendido com o que viu na tela, ele disse que não era o Rio de Janeiro que ele vive. Aí é que está, é justamente neste Rio que ele vive, mas ele só conhece metade de sua cidade, a outra metade ele só viu pelo filme, não só ele como muitos. Um nove vai virar zero, o outro nove também, o outro também e o um vai virar dois; vai virar tudo! O certo vai virar errado e o errado vai virar certo. Esta é a teoria de Vovô (Nelson Sargento), um velho prisioneiro companheiro de cela de João. Vovô é um personagem secundário mas marcante em seus poucos minutos de tela; sua crença louca na mudança dos quatro números e na mudança que isto vai provocar em todo o resto sintetiza muito bem seu desejo; se o certo vira errado e o errado certo, os prisioneiros serão libertados e os cidadãos presos. Uma reviravolta que deixa qualquer preso esperançoso. Mas as loucuras de vovô são as únicas previsões alucinantes e impossíveis do filme. Para Walter e Daniela, a mudança do milênio nada mais é que uma virada de ano como outra qualquer, mas eles sabem que cada pessoa tem grandes expectativas em torno desta data, e é isto que pode fazer algo de diferente. |
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