Música para ver e aplaudir

Os cinéfilos podem se preparar para o concerto. O diretor João Moreira Salles (Notícias de uma Guerra Particular) leva às telas a vida de um dos maiores pianistas do Brasil e do mundo da atualidade: o tímido, reticente e surpreendentemente genial Nelson Freire.

Retratado através de 31 blocos temáticos, o documentário mostra a vida de Nelson e sua relação com a música, acompanhando dois anos de sua vida tanto no Brasil quanto em turnês pela França, Bélgica e Rússia.

Além de traçar a trajetória do menino-prodígio que veio do interior de Minas Gerais para o Rio de Janeiro e que, aos seis anos de idade já dava concertos por onde passava, o filme mostra sua relação com seus parentes que se sacrificaram para que ele estudasse com os melhores mestres. Uma carta escrita pelo pai (e lida pelo documentarista Eduardo Coutinho) exprime o amor de sua família e sua preocupação com a educação musical de Nelson.

Mais do que aluno, o pianista, hoje com 58 anos, se mostra muito afetivo ao lembrar de suas professoras de piano, principalmente com Nise Obino, de grande importância na carreira do músico. Outra pianista que faz parte da vida de Nelson é a argentina Martha Argerich, com quem aparece tocando, ensaiando e conversando em momentos de muita intimidade e descontração.

São também mostradas as rotinas de concertos, o contato com os pianos (alguns com os quais o próprio pianista diz não se entender!), um trecho problemático do concerto nº 2 de Brahms, a relação com a orquestra de São Petersburgo e o nervosismo do músico ao tocar pela primeira vez na Rússia. Nelson revela que sente inveja da alegria de tocar do pianista de jazz Errol Garner e também aparece se deliciando com uma cena de Rita Hayworth dançando com Fred Astaire. E confessa: Lana Turner mexe tanto com ele que o fez tocar mal (segundo ele) no dia em que assistiu a um filme com a atriz.  

A maior dificuldade na produção do documentário foi traçar o perfil de um artista que, apesar do sucesso no mundo todo, por opção própria se esconde dos holofotes. Assim, sua vida pessoal não é apresentada, mas uma reflexão sobre a banalização da vida quando esta se torna pública, e seus valores como: privacidade, respeito e amor.

Mais do que um filme sobre a música (são executadas "Melodia" da ópera "Orfeu e Eurídice" de Gluck, uma vez numa gravação de Guiomar Novaes, logo em seguida por Nelson Freire; trechos generosos do "Concerto nº 2" de Rachmaninov, da "Fantasia op. 17" de Schumann, do "Concerto nº 2" de Brahms, e etc.) é um filme sobre a paixão de um homem pela vida e pela música. Para ver, ouvir, aplaudir de pé e pedir bis.