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DA CAMA PARA A FAMA
Pornô Caseiro à la Ingmar Bergman
Em seu primeiro longa-metragem, o hilário
Torremolinos 73 (2003), o realizador espanhol Pablo Berger mostra que
tem talento e humor de sobra. Diretor de vídeos musicais e anúncios de
publicidade antes de estrear com o curta-metragem Mama (1988), ele
escolheu uma história inusitada, porém verídica, para sua estréia no
formato. Com uma estética bacana, figurinos cheios de estilo e personagens
carismáticos (com o ator Javier Câmara no papel principal), o filme é um
ótimo motivo para ir ao cinema.
Espanha, início da década de 70. Alfredo López é um
homem honesto e trabalhador. Vendedor de enciclopédias a domicílio, ele leva
uma vida pacata com sua esposa Carmem, uma mulher recatada que trabalha em
um salão de cabeleireiro e sonha em ter um filho com seu dedicado marido.
Durante muitos anos, tudo funcionou bem para eles. Mas a modernização da
editora e a nova forma de distribuição de fascículos, agora semanais, faz
com que as vendas de enciclopédia caiam e os dois passem por uma grave crise
financeira.
Ciente disso, Alfredo é chamado para conversar com seu
chefe, que lhe apresenta uma nova proposta de trabalho. Porém, esta será
mostrada também aos outros dois vendedores que restaram na empresa em um
final de semana em um hotel de montanha, acompanhados de suas esposas.
Animado, o diretor anuncia: cada um deles será
responsável pela confecção de um novo sucesso de vendas no mercado
escandinavo - as fitas da “Enciclopédia da Reprodução no Mundo”. O nome
bonito esconde um grande esquema de produção de filmes eróticos caseiros em
Super 8. Como Alfredo não tem dinheiro nem para pagar o aluguel, e Carmem
sonha em ter o seu pimpolho, eles decidem aceitar a proposta. Pelas contas,
o dinheiro de um filme é o equivalente à venda de 164 enciclopédias, ou
seja: graninha fácil, fácil. E com muito prazer.
Mas antes eles precisarão fazer o curso acelerado de
“Como realizar filmes eróticos”. Para ajudar Alfredo a filmar e atuar, foi
chamado um cineasta (e ator pornô) que jura ter sido assistente do diretor
Ingmar Bergman (ele sempre mostra um megafone escrito ´Bergman´ para
provar). E para auxiliar Carmem, uma loira tarada, atriz pornô dinamarquesa
que ensina vários truques de sedução e strip-tease.
Assim, gordinho, baixinho, com bigodinho bem cortado e uma
lustrosa careca, Alfredo acaba se tornando um ativo ator pornô e um elogiado
diretor de seus próprios filmes, cada vez mais interessado em cinema,
principalmente de Ingmar Bergman. E Carmem acaba se tornando uma grande
estrela do cinema pornô dos países escandinavos, mesmo sem ter noção disso.
Com o dinheiro eles passam a ter uma vida de luxo, com apenas um problema:
ela não consegue engravidar.
Cansado de fazer curtas-metragens, Alfredo decide fazer
seu primeiro longa com a mulher no papel principal e uma estética que lembra
totalmente o cinema de Bergman. Nada de pornô. Porém, o produtor (e dono da
“editora”) escalou um ator escandinavo, fã ardoroso de Carmem, para ser
o par da moça. E como é ele quem está bancando, obviamente o filme deverá
ter uma cena de sexo.
Alfredo terá que decidir se quer terminar seu primeiro
longa-metragem, com o problema de ter que ver e dirigir um dinamarquês
usufruindo do corpinho de sua esposa. A experiência inacreditável pode
trazer também muita satisfação para o casal – principalmente para Carmem
(não pense em bobagens, assista ao filme para descobrir!).
O popular ator espanhol Javier Cámara, conhecido por
sua participação em diversos filmes de sucesso, vive o inusitado
protagonista Alfredo. Ele recebeu uma indicação ao Prêmio Goya de Melhor
Ator Revelacão por Torrente, el brazo tonto de la ley (1998) de
Santiago Segura. No Brasil, seus trabalhos de maior destaque foram Lucia
e o sexo (2001) de Julio Médem e Fale com Ela (2002) de Pedro
Almodóvar, onde encarna o apaixonado Benigno. Ele também continua
trabalhando para o diretor em seu último filme, A Má Educação (2004),
em cartaz nesta edição do Festival do Rio.
Para o papel de sua esposa Carmem está a atriz Candela
Pena, também muito celebrada na Espanha. Ela começou a atuar com o diretor
Imanol Uribe em Dias Contados (1994), que lhe rendeu uma indicação ao
Prêmio Goya de Melhor Atriz Revelação. Por seu trabalho em Hola, ¿estás
sola? (1995) de Icíar Bollain, a atriz ganhou o prêmio 'Olho Crítico'.
Ela também faz parte do rol de atrizes escolhidas por
Almodóvar e atuou em Tudo sobre minha mãe, no papel de Nina. (Dominique
Valansi).
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