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VINICIUS
"Meu
caro Vinicius de Moraes, escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma
notícia grave: a primavera chegou. É a primeira primavera desde 1913 sem a
sua participação. Seu nome virou placa de rua. E nessa rua que tem seu nome
na placa vi ontem três garotas de Ipanema que usavam minissaia. Parece que a
moda voltou nessa primavera".
(Rubem
Fonseca, dois meses após a morte do poeta).
Vinte
e cinco primaveras e verões ensolarados depois, Vinicius é tema de uma
cine-biografia homônima, dirigida por Miguel Faria Jr e apresentada em
avant-première na solenidade de abertura do Festival do Rio 2005.
Poeta, escritor, autor de teatro, diplomata, advogado, crítico de cinema,
músico, compositor, boêmio e um eterno apaixonado pelas mulheres - não
necessariamente nesta ordem-, ele continua sendo um ícone da cultura
brasileira por sua obra e trajetória únicas.
Além
de contar a vida do poeta cronologicamente, o filme híbrido de documentário
e ficção contextualiza sua história intercalando vídeos e fotos de época,
depoimentos emocionados (e despojados) de pessoas próximas, leitura de seus
poemas, imagens caseiras inéditas e releituras de seus maiores sucessos por
intérpretes convidados. Intimista e pessoal, faz uma profunda análise de
seus inúmeros e intensos relacionamentos. Afinal, segundo dizem, Vinicius
nunca gostou de estar só.
Da
infância marcada pela religiosidade do colégio Santo Inácio, Vinicius passa
pela rigidez da faculdade de Direito e produz muitas poesias eruditas com
toques católicos. Ele estuda em Londres, casa-se, tem filhos, volta para o
Brasil e torna-se diplomata. Ao longo dos anos, ele vai se deslocando deste
mundo inicialmente erudito e europeu, para o popular e brasileiro, uma
dualidade que o acompanhou a vida toda. Em seu depoimento, Edu Lobo declara
que "Vinicius era um velho com 24 anos". E Ferreira Gullar completa
afirmando que "aos poucos ele vai virando o Vinicius, vai virando
brasileiro".
Um
ponto em que ele quebra paradigmas, ao reunir a cultura popular brasileira à
erudita, é na peça Orfeu da Conceição, escrita para um elenco obrigatório de
atores negros. Ela serviu de base para o filme
Orfeu Negro, que em 1959
conquistou o primeiro prêmio no Festival de Cannes.
Em um
hilário depoimento, Caetano Veloso lembra que a primeira vez que "viu"
Vinicius foi na televisão, falando sobre Orfeu da Conceição. Ele conta que
comentava com todos na Bahia que tinha um escritor no Rio muito bom, chamado
Vinicius, que era negro. Na verdade quem estava sendo entrevistado na tevê
era o protagonista da peça. Como não sabia disso, o compositor baiano passou
mais de um ano sem saber do engano.
A
vida pessoal de Vinicius, seus nove casamentos e a relação com a família são
abordados de modo intenso por suas filhas Suzana (produtora do filme),
Georgiana, Luciana e Maria. Sua amiga Tônia Carrero conta que "ele precisava
do precipício da paixão" para viver e por isso se apaixonava tanto.
A
boêmia e seu "cachorro engarrafado", o uísque, sempre presentes nas últimas
décadas de sua vida têm destaque no filme. Em um vídeo caseiro inédito feito
por Suzana, Tom Jobim e Vinicius aparecem completamente bêbados em um
jardim, cantando Pela Luz dos Olhos Teus.
A
música e suas parcerias a partir do nascimento da Bossa Nova são outros
aspectos fundamentais do filme. Chico Buarque conta que o conheceu com 10
anos, pois Vinicius era amigo de seu pai. Também dão seus depoimentos
Gilberto Gil, Miúcha, Toquinho, Maria Bethânia, Francis Hime e Carlinhos
Vergueiro.
O elo
da história com o presente é a montagem de um pocket-show em homenagem a
Vinicius, em um palco simples, com uma bela iluminação. Nele, Camila Morgado
e o ator Ricardo Blat recitam e interpretam poemas, "apresentando" o filme
para o público. Apaixonada pelo poeta, a atriz afirma que "Vinicius não
pertence a uma geração. Pertence a todas. Não há como não ser tocada por sua
obra".
A
parte musical fica por conta de novos nomes que interpretam clássicos da
obra de Vinicius. Yamandú Costa toca Valsa de Eurídice, Mônica Salmaso canta
Insensatez e Canto Triste, e o sambista Zeca Pagodinho entoa Pra Que Chorar.
Em uma apresentação emocionada, Adriana Calcanhoto toca Eu Sei Que Vou te
Amar e Mariana de Moraes canta Coisa Mais Linda. Também participam
Mart´Nália, MS Bom, Nego Jeff e Lerov, Sérgio Cassiano, Olívia Byington e
Renato Braz numa seleção diversificada e interessante.
O
sentimento que é mais evocado e talvez provocado pelo filme é a alegria e o
amor. A intensidade do amor de Vinicius pelas pessoas, pelo Brasil e pela
vida é contagiante. Muita gente vai sair do cinema com a total certeza que
"É melhor ser alegre que ser triste / Alegria é a melhor coisa que existe /
É assim como a luz no coração".
(Dominique Valansi) |






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