| Todas as relações hoje são mediadas por alguma tela. Os desejos circulam pelas superfícies eletrônicas. Os objetos do desejo estão em alguma ponta de uma vasta rede de conexões - cabos e câmeras, fibras óticas, roteadores, servidores, discos rígidos, discos óticos - codificados, decodificados, recodificados e afinal consumidos. E o desejo se produz.
Ela é o seu tipo, não é? você olha a moça de certo ângulo e é a Uma Thurman. Ou os dedões dela esticados na tua cara numa grande angular. E você, na bagunça do coração dela, o que será? Ela disse qualquer coisa a respeito, numa mensagem de texto na tela do celular.
Enquanto esse pensamento passa rápido pela sua cabeça, toca uma música e já é outro filme, outro fetiche de um outro fetiche de um outro fetiche.
O desejo se forma via suporte eletrônico/virtual, mas (ainda) se concretiza no mundo tridimensional, orgânico e material. Aquilo que por ora permanecemos entendendo como mundo real. Se o que vemos e produzimos nas telas forma e informa os nossos desejos, meio vindo de fora meio narciso, esses desejos quando afinal ganham uma cara, um corpo e um enredo, precisam ser tocados, cheirados, amassados, mordidos, beijados.
E a todo tempo checamos a sensação concreta com a imagem virtual. Sobrepomos as imagens. A mulher ali na frente, naquela luz, com aquele cabelo, naquela posição... confere com tal fetiche, não confere? Com a foto que você viu na web, com as sacanagens que ela escreveu num email (ou foi você mesmo quem escreveu?).
As fotos de Cícero Rodrigues e Dempsey Gaspar falam dessa erocinética. Um movimento sem fim. Aquém e além da tela.
David F. Mendes |