CAFUNÉ, UMA OBRA ABERTA
por Dominique Valansi




A pré-estréia de Cafuné, primeiro longa-metragem de Bruno Vianna foi a atração da sessão de 19 de agosto do projeto PROFESSOR VAI DE GRAÇA AO CINEMA, do Oficina Cine-Escola. Mais do que uma obra da nova safra de diretores cariocas, o filme marca o início da distribuição de filmes nacionais pelo Grupo Estação, que trouxe ao país títulos como o “cultBuena Vista Social Club.

Além disso, Cafuné é também o filme precursor no país a estrear ao mesmo tempo nas salas de cinema e na Internet, com direitos abertos para quem quiser fazer download ou até reeditar o final do filme. Leia como foi este debate cheio de assuntos atuais.

A obra e o autor

Todo rodado com tecnologia digital, Cafuné é a história do romance entre uma jovem de classe média alta da Zona Sul do Rio de Janeiro, Débora (Priscila Assum) e Marquinhos (Lúcio Andrey), pobre e morador da favela. Mesmo em uma cidade tão habituada a contrastes, a relação acaba tendo que enfrentar muitos preconceitos para continuar. O filme traça um desenho interior das personagens, que muito jovens, se deparam com a vida adulta num ambiente de violência e preconceito e vivem um relacionamento fadado a não dar certo.

Na conversa que teve com os professores, o diretor contou que a relação entre o morro e o asfalto fala muito a respeito dele. Não é por acaso que todos os seus filmes falam sobre a favela. “O morro exerce sobre mim um fascínio até antropológico, tenho uma imensa vontade de me comunicar com este outro mundo”.

Para Cafuné, ele procurou trazer um ponto de vista raramente explorado. O espectador está acostumado a ver filmes feitos pela classe média sobre a favela, mas a classe média quase não se insere no foco da discussão, sem olhar para si. Bruno apontou as lentes para o “asfalto”. “Quis mostrar como a violência está afetando aqui embaixo. É até um tema menos nobre, mas mais pessoal. Mostrar o esvaziamento da cidade, a falta de trabalho. Nos anos 70, era aqui no Rio que tudo acontecia. De uns anos para , o mercado de trabalho se esvaziou e este foi o ponto de partida para o filme”.

Pouco conhecido do grande público, Bruno Vianna tem uma carreira premiada como curta-metragista. Formado em cinema pela Universidade Federal Fluminense, segundo o diretorfundamental para sua carreira”, ele dirigiu: Geraldo Voador (1994), Rosa (1997), Tudo Dominado (2002) e Nevasca Tropical (2003), que podem ser assistidos pela Internet no site Porta Curtas (www.portacurtas.com.br).

Tecnologia aumenta a produtividade

Segundo o diretor, “toda a equipe tinha em comum o objetivo de fazer um filme de baixo orçamento. Sem a tecnologia digital teria sido impossível bancar a produção com o orçamento que recebemos no edital de produção de filme de Longa Metragem de Baixo Orçamento do Ministério da Cultura (2003), de R$ 600 mil reais. Enquanto uma lata de filme 35mm tem o custo alto, uma hora de fita digital custa R$ 20,00”, explicou. Porém como era obrigatório pelo regulamento fazer uma cópia em 35mm, foram gastos cerca de R$ 170 mil para converter o digital em película. Mesmo com esta despesa, o filme pagou a equipe, cobriu todos os seus gastos e ainda sobrou um dinheiro para a distribuição. O objetivo passou a ser não um sucesso de bilheteria, mas uma grande audiência: que alcance platéias e espaços normalmente inacessíveis.

A distribuição digital também permitiu que o diretor brincasse com o final e disponibilizasse duas versões, uma para as salas com equipamento digital e outra para os cinemas “à moda antiga”. Além disso, na Internet o espectador ainda poderá assistir algumas cenas que foram cortadas.

Sofware Livre

Como o filme foi selecionado pelo Programa Petrobras Cultural 2005 e com isso bancou sua distribuição, Bruno decidiu disponibilizar o filme inteiro para download gratuito em sites de programas como o E-Mule (www.e-mule.com). “O Grupo Estação abraçou de cara essa idéia de usar os canais de distribuição para obras de direitos autorais abertos (o chamado copyleft), ou a licença Creative Commons (www.creativecommons.org.br).

O lançamento de Cafuné dessa maneira é uma experiência nova. O que hoje já é feito na música, passa agora a ser feito com o cinema. Depois da democratização da produção (com o advento das câmeras digitais), começa uma fase em que a distribuição está sendo oficialmente democratizada.

A proposta ainda vai mais além, os internautas que baixarem o filme serão convidados a reeditá-lo fazendo sua própria versão de Cafuné, com cenas extras e ferramentas à disposição. E o diretor pensa em incorporar essas versões ao DVD do filme. É uma aposta na interatividade e na criatividade do público.

Logo que Bruno terminou o filme e apresentou para a Filmes do Estação, a distribuidora colocou que o final poderia ser um “problema”. A trama não tem um desfecho óbvio, deixando várias interpretações possíveis. Na opinião da professora de artes Verônica Soares, que estava presente no debate, o final em aberto enriquece a apreciação de qualquer obra (seja na literatura ou no cinema), pois, provoca a mudança de atitude do espectador de mero receptor para uma posição mais participativa. A professora contou que muitos alunos reclamam quando ela os leva para ver um filme “sem final” e aí que está a importância de projetos como Cafuné, que instigam a imaginação da garotada.

O professor Maurício Fabião, sociologia, complementou dizendo que ajudar os alunos a construir seu próprio pensamento é um grande desafio num país em que 75% da população é de analfabetos funcionais (segundo o professor esse dado é do MEC). “Se os alunos têm problemas cognitivos, há conseqüentemente grande dificuldade na criação”. É uma triste realidade que os professores devem mudar e, nesse sentido, Cafuné vem contribuir para essa transformação.

Material de apoio para download, clique aqui (arquivo em .pdf, para abrir é necessário Adobe Reader).


Confira como foram as sessões anteriores...
 

Os professores que quiserem participar das próximas edições do projeto Professor Vai de Graça ao Cinema, devem entrar com contato com o Oficina Cine-Escola programa educativo do Grupo Estação por e-mail luizabrettas@grupoestacao.com.br ou pelo telefone (21) 2266-9900.
 



 

Fotos: Dominique Valansi