O CÉU DE HERMILA
por Dominique Valansi




Uma pré-estréia nacional marcou a edição do dia 11 de novembro do projeto PROFESSOR VAI DE GRAÇA AO CINEMA. Depois de ter sua première no Festival de Veneza, foi exibido para os educadores O Céu de Suely, segundo longa-metragem do diretor cearense Karim Aïnouz (o primeiro foi o elogiado Madame Satã). O filme arrecadou os grandes prêmios de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Atriz, para a protagonista Hermila Guedes,do Festival do Rio 2006.

Na trama, a atriz vive a inusitada, porém verídica história de uma jovem. Hermila volta de São Paulo com seu filho bebê para a casa de sua família na cidadezinha do interior do Ceará, Iguatu. Ela espera a chegada do marido que deve reencontrá-la. Mas ele nunca chega da “cidade grande”. Sozinha, ela toma a decisão de partir novamente. que, para juntar dinheiro e seguir seu destino, ela resolve se reinventar: adota o nome de Suely e literalmente, rifa-se, chocando a todos.

Para conversar com os professores depois da sessão, foi convidado Felipe Bragança, diretor assistente e co-roteirista do filme. Ele contou detalhes sobre as filmagens e principalmente sobre a relação da equipe com os moradores de Iguatu, cidade-pólo do sertão central cearense.

Nada foi construído. Tudo era de verdade, pois nosso desejo era de integrar o cenário ao espaço. Colocamos as atrizes (Hermila Guedes, Maria Menezes e Zezita Matos) vivendo na mesma casa, que alugamos de moradores, como forma de incentivar a interação entre elas. Trancamos suas roupas e durante dois meses, elas usaram o figurino das personagens. O (ator) João Miguel, aprendeu a dirigir moto chegando a trabalhar realmente como moto-taxista. O Karim levou este processo ao extremo”, conta.

Até figurantes, a equipe tentou ao máximo não utilizar. Então, o que se na grande maioria das cenas são os próprios moradores que passam e participam das história. “A festa de forró, por exemplo, é real, acontece mesmo. Fomos umas vinte vezes, a Hermila dançava a noite toda com o pessoal da cidade. Até que descobrimos que na quinta-feira era um dia bacana, que ficava cheio, sem estar lotado, e dava pra andar com a câmera”.

Felipe imagina que, talvez pela cidade ser basicamente azul (do céu) e amarela (da terra), os moradores da cidade buscam criar beleza com cores. “O figurino das atrizes era muito próximo ao das meninas de Iguatu. Lá é muito quente, então para quebrar um pouco, elas tem uma vontade de criar uma beleza. Usam roupas muito coloridas e as casas são todas pintadas com tons vivos”.

A naturalidade da interpretação e a interação total com o meio foram questões fundamentais na construção dos personagens e nos diálogos. Por isso, todos os atores envolvidos eram nordestinos (para não se criar um sotaque “aprendido” em um ator do sudeste/sul) e o improviso era estimulado. “Eu era o único carioca da equipe, então era engraçado escrever as falas de quem era de lá”.

A preparação do elenco ficou por conta da conceituada Fátima Toledo (que trabalhou com a protagonista de Tainá e com os meninos de Cidade de Deus) e os diálogos muitas vezes eram cheios de frases criadas durante exercícios de improviso. “Queríamos um tipo de interpretação que não tivesse preocupada com o texto, mas com o tom do personagem”.

Sobre a verdadeira mulher, que originou a história, Felipe contou que Karim esteve com ela, mas a equipe não conseguiu encontra-la. “A Suely real virou uma lenda. Dizem que ela se casou com um mecânico e que morava em uma cidade próxima. Fomos até lá, mas a mulher do mecânico não quis nos receber. Outros dizem que ela foi pra Europa. Mas, com o tempo, a gente perdeu o interesse em descobrir”.

Mistérios a parte, a verdade é que O Céu de Suely é mais uma das gratas surpresas da nova geração de cineastas (e atores) do cinema nacional. Tudo com o arretado tempero da cultura cearense. Para quem quiser assistir, o filme entra em cartaz a partir de 17 de novembro. Não percam!

Site oficial do filme: www.oceudesuely.com.br

Material de apoio para download: página 1 e página 2 (arquivos em .pdf, para abrir é necessário Adobe Reader).

Leia também: Karim Aïnouz, O Céu de Suely. Texto de Andréa Carvalho, na revista eletrônica Scene4 - International Magazine of Performing Arts and Media.


Confira como foram as sessões anteriores...
 

Os professores que quiserem participar das próximas edições do projeto Professor Vai de Graça ao Cinema, devem entrar com contato com o Oficina Cine-Escola programa educativo do Grupo Estação por e-mail luizabrettas@grupoestacao.com.br ou pelo telefone (21) 2266-9900.
 



 

Fotos: Dominique Valansi